Feminismo para principiantes: “Feminista até pagar menos na balada”

Esse é um dos discursos que mais me cansa na “cruzada contra o feminismo”. Até dei um looooooooongo suspiro antes de começar a escrever esse post.

Dentre todos os problemas que as mulheres passam, REALMENTE exigir que se pague mais na balada deve estar em posição de destaque (contém ironia).

Poxa, gente, vamos usar alguns argumentos menos patéticos?

Mas vamos lá. Mande esse link sempre que alguém vier com esse suuuuuuuper argumento.

Você sabe porque mulheres pagam menos em algumas baladas? Você acha que tem alguma coisa a ver com privilégio? “Nossa, olha, elas pagam metade, como estão ricas!”

É como aquelas festas em que as mulheres podem entrar antes e, enquanto elas estão lá dentro, antes dos caras chegarem, rola open bar. Mulher, nesses casos, é isca. Isca. Objeto.

Para o empresário dono da balada, não interessa ter um lugar lotado de homem hétero e com poucas mulheres. Eles provavelmente vão brigar entre si pela atenção das garotas, que possivelmente serão agredidas (terão o cabelo puxado, não conseguirão ir ao banheiro sem “pagar pedágio”, não poderão dançar uma música inteira em paz). Logo, o lugar não será atraente para as mulheres que, apesar de às vezes quererem, sim, ir a um a boate com muitos caras, não querem ser puxadas ou encurraladas.

Vocês nunca foram numa night em que só deixam entrar casais num determinado momento e/ou a mesma quantidade de homens e mulheres? É para evitar brigas e tumultos.

Assim, oferecer open bar para as mulheres e/ou cobrar menos para a entrada delas não é uma coisa que estão DANDO para as mulheres. É tão somente uma forma de atrai-las e, por conseguinte, fazer com que os caras imaginem que ali eles terão mais chance de “sair do zero a zero”. O open bar serve para embebedá-las e deixá-las “mais facinhas”. É só isso. E é bem nojento, convenhamos.

Na verdade, é o contrário do que dizem por aí. Dizem que é algo bom para as mulheres, quando o fato é que isso só é bom para os homens e para o empresário. Tratar as mulheres como isca é machismo, meus caros.

***

Leia outro post do feminismo para principiantes: trabalhar fora.

Se você tem alguma pergunta sobre feminismo, aqui tem o ask.fm de Feminismo para Principiantes. Sua pergunta pode virar um post aqui no blog. Vai lá. :)

Gostar de pinto me faz uma pseudofeminista (e o trashing por trás disso tudo)

Há um bom tempo eu não procuro saber o que falam de mim nas redes sociais, tampouco participo de grupos feministas. Fiz isso para me preservar; de fato algumas coisas eram pesadas demais para eu carregar.

Foi uma ótima decisão. Agora produzo muito mais, me estresso menos e não  me chateio. Junto com essa mudança de comportamento, veio também a certeza de que eu preciso fazer algo de fato (e de direito) contra algumas dessas pessoas. Todo mundo sabe, porque já disse aqui mil vezes no Twitter também, que o grupo do Blogueiras Feministas é um dos lugares em que as agressões correm soltas.

E de lá já saí há meses.

O problema é que nem sempre é possível se blindar. Hoje, logo ao acordar, vi uma discussão no twitter em que falavam mal de mim. Uma das pessoas na conversa já faz isso de forma recorrente. O problema – e foi assim que fiquei sabendo – é que uma “amiga” minha estava no meio.

Tudo começou porque a Clara Averbuck escreveu um post em que ela me linka. Duas mulheres disseram que gostaram do texto da Clara, mas que não divulgariam justamente por causa dessa indicação feita a mim.

Acabo de ler um texto sobre feminismo bacana, mas como cita pseudo feminista falocentrada, não posso citar, sorry.

o texto é bom. Mas não posso endossar algo que indica um treco desses, hahaha

A pseudofeminista falocentrada, no caso, sou eu. :)

Daí ela resolve “explicar” o ponto dela:

ué, é simples: a vida da pessoa gira em torno de homens, do que eles fazem, do que eles não fazem, dos canos que leva…

É uma walking Sabrina, sem tirar nem por.

tá tudo certo, não vejo problema nisso, mas não me chame de feminismo ou de liberação da mulher,pq eu vejo o mesmo romantismo.

disfarçado sob a roupagem de “só quero sexo”. Mas o falocentriscmo tá ali. A importância dada a ter um homem tá presente.

né? hahaha, é doído até, não rio porque deve ser sofrido. Mas que não tem nada de feminismo, ah não tem.

Tudo isso foi escrito por uma pessoa que já deixou claro no passado que não gosta de mim. O problema todo – e que me machucou – é que ela estava conversando com a tal “minha amiga”.

Fiquei chateada porque, apesar de não nos vermos nunca, nos respeitávamos (ou eu pelo menos achava isso), compartilhávamos confidências, fazíamos planos (ela estava incluída em um dos meus projetos).

Daí essa mesma pessoa, que sabe que não, minha vida não gira em torno de homens, concorda, ri, faz graça… sobre mim.

Ainda que minha vida de fato fosse do jeito que as pessoas pintam, elas não têm o direito de fazer julgamento de valor a respeito. Elas sabem disso. Não estou falando de gente ignorante. Também jamais disse que transar com vários caras fosse uma “luta feminista”, mas sim que o feminismo permitiu (mais ou menos, ainda) que eu fizesse o que bem entendesse com meu corpo.

No livro da bell hooks que citei mais cedo, há a seguinte frase: “Se as mulheres não têm o direito de escolher o que acontece com nossos próprios corpos, nós nos arriscamos a abrir mão de direitos sobre qualquer outra área das nossas vidas”. É simplesmente isso: o corpo é meu e eu posso/quero/faço. O feminismo me deu isso, e não o contrário.

De todo modo, eu não vou pedir desculpa por gostar de homem e de sexo. Assumo isso (até escrevi um livro, vejam só). Mas uma amiga dizer que tudo o que faço se resume a isso é demais pra minha cabeça. Doeu. Eu não preciso repetir aqui o que um monte de gente já sabe. Eu não sou unidimensional.

Gosto de pinto. Gosto de barba roçando no meu pescoço. Gosto de perceber o sorriso safado na hora do flerte. Gosto de ver os olhos se fechando e o corpo tremendo na hora do gozo. Gosto, não: amo.

Isso não me faz mais ou menos feminista do que qualquer outra pessoa.

O curioso é uma so-called feminista fazer slut shaming com outra feminista, e ainda tirar a minha carteirinha e me chamar de pseudo. Mas qual é a novidade? É assim que ela se refere à Lola, por exemplo:

a pessoa que escreveu o texto me bloqueou depois de uma briga, hahaha! Ela endossa o texto da pseudo e da outra, com 4 letras

Num único tuíte, ela caçoa de três feministas: eu (pseudo), a Clara (a pessoa sem nome que escreveu o texto) e a Lola, que vira “a outra, com 4 letras”.

Num único tuíte.

Minha chateação com tudo isso se deve, é claro, por ter uma “amiga” envolvida na conversa. Contei o acontecido a uma amiga feminista, e ela me indicou um texto excelente sobre trashing no meio feminista. O texto é enorme e em inglês, mas com ajuda eu vou traduzi-lo e postá-lo aqui no blog.

O curioso é que ele foi publicado em 1976 na Ms. Magazine, e é assinado por uma feminista militante dos Estados Unidos. Ela conta como foi banida e agredida verbalmente em círculos feministas. Ao ler o texto, resolvi escrever esse post. Porque ele é sobre mim, mas sobre todas as feministas que vejo sendo acuadas o tempo todo por gente que se diz feminista.

Falo em meu nome, apenas, mas posso citar de cara as perseguições à Lola e à Clara, já expressas nesse post, e à Jarid Arraes. Há outras mulheres que não sei se gostariam de ser citadas aqui.

E por que essas pessoas atacam? A resposta eu deixo com Anselma Dell’Olio, num trecho da palestra “Divisão e autodestruição do Movimento Feminista”, citado no texto da Ms:

E por que elas atacam? Geralmente por duas coisas. Realizações ou conquistas de qualquer tipo parecem ser o pior crime: faça qualquer coisa que outras mulheres secretamente ou não pensam que poderiam fazer igual – e… é o suficiente. Por outro lado, se você for incisiva e tem o que é geralmente descrito como “personalidade forte”, isto é, não se enquadra no estereótipo de “mulher feminina”, está acabado. 

Se você está na primeira categoria (uma pessoa que conquista coisas), você é automaticamente rotulada como oportunista, mercenária implacável, doida pra fazer grana e fama em cima dos corpos das militantes altruístas que enterraram as próprias habilidades e sacrificaram suas ambições para a glória do feminismo. 

Produtividade parece ser imperdoável – mas se você tem a desgraça de ser sincera e articulada, você é também acusada de ser controladora, elitista, fascista e, o pior: se identifica com os homens.”

A autora diz que muitas das militantes que foram “trashed” (e ela se inclui nesse bolo) simplesmente se afastaram do movimento. Eu vejo isso acontecendo repetidamente por aqui. Algumas desistem; outras, como eu, continuam escrevendo, produzindo, mas se afastam de grupos e passam a falar com o público não-militante.

É triste. Mais triste ainda quando o ataque te pega de surpresa, como aconteceu comigo hoje (estou falando da minha até poucas horas atrás amiga). Dá vontade de desistir, de acabar com a porra toda, de apagar os rastros online e voltar a, sei lá, advogar.

Esses pensamentos sempre voltarão à minha mente quando coisas parecidas acontecerem comigo ou com outras militantes. Eu não sei até quando a gente aguenta. Só sei que, se a gente desistir, alguém vai ter vencido. E não vai ser o feminismo.

Chegue mais perto do feminismo

Ando lendo vários livros feministas. A intenção é resenhar todos eles aqui no blog. Falta tempo e foco. O último que comecei é o Feminism is for everybody, da bell hooks. Ainda não cheguei à metade, então não posso dizer se indico ou não.

Porém, a introdução é tão perfeita e tão linda que eu faço questão de traduzir e compartilhar com vocês. Fiquei realmente emocionada durante a leitura. Espero que gostem.

fem-everybody

Chegue mais perto do feminismo

Em todos os lugares que vou eu digo orgulhosa, a quem pergunta, que eu sou escritora, teórica feminista e crítica cultural. Digo que escrevo sobre filmes e cultura popular, analisando a mensagem no meio. A maior parte das pessoas acha isso excitante e quer saber mais.

Todo mundo vai ao cinema, vê televisão, lê revistas, e todo mundo pensa sobre as mensagem recebidas e imagens vistas. Eu encontro com pessoas diversas, e elas compreendem facilmente o que faço como crítica cultural e minha paixão por escrever (muitas dessas pessoas também querem escrever – e algumas o fazem).

Mas teoria feminista… este é o ponto em que o interesse acaba. Pelo contrário: eu acabo ouvindo sobre o sobre como feminismo não presta e sobre as feministas más; como “elas” odeiam os homens; como “elas” querem ir contra a natureza – e contra deus; como “elas” são todas lésbicas; como “elas” estão tomando todos os empregos e tornando o mundo um lugar difícil para os homens brancos, que não têm mais chance.

Quando eu pergunto a essas mesmas pessoas sobre os livros ou revistas feministas que elas leem; quando eu as questiono sobre as palestras feministas que elas já escutaram; ou sobre ativistas feministas que elas conhecem; elas respondem de um jeito que deixa claro que tudo o que elas sabem sobre feminismo chegou até elas de maneira indireta. Percebo que elas não se aproximaram do movimento feminista para saber o que realmente acontece, qual é de fato a luta.

Basicamente elas pensam que feminismo é um monte de mulher raivosa querendo ser como os homens. Elas sequer pensam que o feminismo trata de direitos das mulheres. Quando eu falo sobre o feminismo que eu conheço – bem de perto – elas ouvem, mas quando a conversa acaba, dizem rapidamente que eu sou diferente, que não sou como as feministas “de verdade” que odeiam homens, que são raivosas.

Eu reitero que sou tão real e tão radical quanto uma feminista pode ser, e os desafio a chegar mais perto do feminismo para perceber que é muito diferente do que elas imaginam.

(…)

Eu quis que essas pessoas tivessem uma resposta à pergunta “o que é feminismo?” que não se baseasse nem no medo e nem na fantasia. Queria que elas tivessem essa simples definição para ler de novo e mais uma vez: “Feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, com a exploração sexista, e com a opressão”. Eu amo essa definição, usada pela primeira vez há mais de dez anos no meu livro Feminist Theory: From Margin to Center. Eu a adoro porque ela diz claramente que o movimento não é anti-homem. Ela deixa claro que o problema é o sexismo.

bell hooks 1

E essa clareza nos faz lembrar que todos nós, mulheres e homens, fomos condicionados socialmente desde o berço para aceitarmos pensamentos e ações sexistas. Como consequência, mulheres podem ser tão sexistas quanto os homens.

Mesmo que isso não justifique a dominação masculina, isso significa que seria ingênuo e errôneo as feministas verem o movimento simplesmente como sendo mulheres contra homens. Para acabar com o patriarcado (outro jeito de nomear o sexismo institucionalizado), nós precisamos ser claros de que todos nós somos sujeitos na perpetuação do sexismo até que mudemos nossas mentes e corações; até que nós deixemos de lado nossos pensamentos e ações sexistas e coloquemos no lugar pensamentos e ações feministas.

Os homens, como um grupo, se beneficiam mais do patriarcado, em razão da ideia de que eles são superiores às mulheres e por isso devem mandar em nós. Mas esses benefícios têm um preço. Em troca de tudo de bom que eles recebem do patriarcado, eles são obrigados a dominar as mulheres, explorar e oprimir, usando violência se eles quiserem manter o patriarcado intacto.

Muitos homens acham difícil se enquadrar nesse sistema. Muitos homens se incomodam com a raiva e o medo das mulheres, pela violência dos homens contras as mulheres, mesmo os homens que cometem tais violências. Mas eles temem perder seus benefícios.

Eles não estão certos sobre o que acontecerá no mundo que eles conhecem intimamente se o patriarcado acabar. Então eles preferem apoiar passivamente a dominação masculina mesmo sabendo em suas mentes e corações que isso é errado.

O tempo todo homens me dizem que não têm a menor ideia do que as feministas querem. Eu acredito neles. Eu acredito na capacidade deles de mudar e crescer. Também acredito que se eles soubessem mais a respeito do feminismo, eles não mais o temeriam, pois veriam no movimento a esperança de também se libertarem da pressão patriarcal.

(…)

Sem esse livro, não há como “falar” com o grande número de pessoas que são diariamente bombardeadas com o backlash antifeminista, pessoas a quem se ensina a odiar e a resistir a um movimento que eles conhecem tão pouco.

Deveriam existir um monte de panfletos e livros feministas fáceis de ler, nos mostrando tudo sobre feminismo. Meu livro seria só mais uma voz apaixonada falando a respeito. Deveriam existir outdoors, anúncios em revistas, em ônibus, metrôs, trens; comerciais de televisão espalhando a verdade, fazendo com que o mundo nos conheça melhor. Nós não estamos lá ainda.

Mas é isso que nós devemos fazer para espalhar o feminismo, para deixar o movimento entrar na cabeça e no coração de todo mundo. A mudança feminista já tocou nossas vidas de um jeito positivo. Ainda assim, nós perdemos isso de vista quando tudo o que ouvimos sobre ele é negativo.

(…)

Imagine viver num mundo onde não ha dominação, onde homens e mulheres não são parecidos ou mesmo sempre iguais, mas em que há uma interação mútua. Imagine viver num mundo onde cada um pode ser quem é, um mundo de paz e possibilidades.

A revolução feminista sozinha não vai criar esse mundo; precisamos acabar com o racismo, o elitismo de classes, o imperialismo. Mas ela tornará possível que sejamos homens e mulheres capazes de criar uma comunidade de companheirismo, de vivermos juntos, realizando nossos sonhos de liberdade e justiça, vivendo a verdade de que todos “fomos criados igualmente”.

Chegue mais perto. Veja como o feminismo pode tocar e mudar sua vida e a de todas nós. Chegue mais perto e veja direto da fonte sobre o que o feminismo trata. Chegue mais perto e você verá: feminismo é para todo mundo.

***

Por falar nisso, criei um ask.fm para perguntas sobre feminismo.

Se quiser perguntar algo, clique aqui. Algumas perguntas virarão post na seção “feminismo para principiantes” aqui do blog.

Feminismo não é uma seita

Post originalmente publicado no Cem +1 em 4 de julho de 2012

Outro dia vi uma palestra do TEDxTeen e pensei em colocar por aqui. A ideia acabou passando, porque não acho o vídeo tão bom.

No entanto, ele vale a referência por uma frase da palestrante, a jovem Tavi Gevinson, editora da RookieMag, uma revista eletrônica voltada para adolescentes. Ela diz: “Feminismo não é um livro de regras, mas uma discussão, uma conversa, um processo”.

Essa definição é importantíssima porque as pessoas confundem muito as coisas. Como sempre. Acham que feminista é uma mulher peluda, que não gosta de homens e se veste de maneira masculina.

Por causa disso é que existe até uma camiseta com a frase “This is what a feminist looks like” (algo como “essa é a aparência de um/uma feminista”).

Esqueça qualquer ideia estereotipada sobre feministas. Primeiro: homens também são feministas, assim como há mulheres machistas. Sim, é claro que há pessoas que se enquadram exatamente naquela ideia que você faz. Mas não só.

Também é preciso notar a diferença entre quem estuda o feminismo e faz trabalhos acadêmicos a respeito, por exemplo, e uma pessoa que nunca leu um livro teórico sobre o assunto. É  natural que “quem está por dentro” consiga enxergar nuances que às vezes parecem viagem completa. Algumas dessas pessoas conseguem transmitir os conhecimento de forma inteligível, levando leigos pra mais perto da academia. Outros, porém, preferem continuar no seu pedestal de títulos e diplomas.

Comparar-se a essas pessoas (cuja bagagem teórica é muito maior do que a sua) e daí automaticamente achar que “não, não sou feminista” há um grande buraco. Feminista é quem acha que mulheres são iguais aos homens. Evidente que existem diferenças biológicas, e acho desnecessário nomeá-las. Claro não me refiro às piadinhas sobre “mulheres na TPM” ou algo parecido. Sim, a descarga hormonal pela qual uma mulher passa na vida é dureza de aguentar – a depressão é muito comum em mulheres na menopausa, por exemplo. Mas isso não quer dizer que mulheres só são incisivas ou emotivas em razão dos hormônios. Assim como homens não são fortes e durões. Esses papéis de gênero são culturalmente impostos; já falamos sobre eles algumas vezes e voltaremos ao tema ainda mais.

Mas se você acha que uma mulher não deve ganhar menos exercendo a mesma função que um homem; que um casal deve compartilhar as atividades domésticas; que mulheres e homens podem ter vida sexual da mesma forma… bom, você é feminista. Mesmo que se depile. Mesmo que adore um batom.

E, acredite: não  há nada de errado em ser feminista. Pelo contrário. Ok, algumas pessoas vão te achar meio chatinha, mas porque é difícil mesmo convencer os outros do que parece óbvio. Porque esse “óbvio” nos foi incutido culturalmente desde que nascemos. Na verdade, desde bem antes. Basta pensar no enxoval todo cor de rosa ou azul. Depois, nos brinquedos de panela e ferro de passar roupa para as garotas e autoramas para os garotos. A gente cresceu vendo isso, aceitando isso, observando nossos pais repetindo atitudes machistas. A gente acha que aquele é o certo. E quebrar esse ciclo exige esforço especial.

Daí entramos numa seara que sempre traz discussões: e o corpo da mulher? Se ela se depila/usa salto/pinta o cabelo/coloca silicone, não é uma decisão que ela tomou a respeito de si mesma? Não necessariamente, porque esta pode não ser uma escolha consciente. Não é à toa que os casos de transtornos alimentares acometem muito mais as mulheres que os homens. Porque nós, mulheres, “precisamos” nos enquadrar no padrão de beleza, já que é essa a nossa função no mundo: embelezá-lo. Sermos objeto do deleite masculino. Duvida? No Brasil, dos pacientes diagnosticados com anorexia, entre 90 e 95% são mulheres.

Assim, fazemos de tudo, de dietas infalíveis a muitos reais gastos em tratamentos de beleza. Cirurgias.

A mesma temática pode ser aplicada à questão da exibição do corpo da mulher. “Como as feministas podem desfilar sem sutiã na Marcha das Vadias e criticar ações como o Lingerie Day?”. São coisas absolutamente incomparáveis. No primeiro caso, a mulher está utilizando o corpo como forma de protesto; no segundo, ela espera aprovação masculina.

Tirar foto seminua numa espécie de concurso não quebra tabus, tampouco significa liberdade do corpo. Sou muito a favor de sermos livres e fazermos o que quisermos com nossos corpos, vocês bem sabem. Mas esse precisa ser um desejo legítimo, não levado pela necessidade de aprovação. Você não precisa de um “selo de qualidade”, especialmente quando ele é baseado na cor dos seus mamilos ou em quão redonda é sua bunda.

Como diz a imagem abaixo, “competir pela atenção dos homens não é empoderamento verdadeiro”.

Você não está exercendo o poder sobre o próprio corpo (e, acredite, você tem esse poder!) quando o está utilizando para ser mais “querida”. Pare de esperar do outro que ele te ame/aceite/deseje. Seja dona de si mesma. Verdadeiramente.

Além da óbvia luta travada para que os direitos sejam iguais entre homens e mulheres, o feminismo quer que você seja dona de si, que saiba seu valor, que supere toda essa bobagem machista que nos ensinaram. Buscando isso e ajudando suas amigas a superarem esses paradigmas você já é uma feminista militante!

Claro que você pode escolher quais correntes seguir ao estudar um pouquinho mais sobre o feminismo. E criar seu próprio ideal. Feminismo não é uma seita em que você precisa seguir várias regrinhas. Pelo contrário. Não se trata de um movimento uno e ele muda constantemente. Você pode construir o feminismo dentro da sua cabeça. O importante é saber que mulheres são iguais aos homens e que somos poderosas. Tanto quanto eles. E, portanto, não viemos aqui para ficarmos em situação inferior.

Não tema o feminismo. Pelo contrário: abrace-o e descubra a/o feminista que existe dentro de você.

 

Feminismo para principiantes: Trabalhar fora

Depois de queimarem sutiãs, agora sou obrigada a trabalhar fora. 

Há várias versões disso aí em cima. Todas colocando no feminismo uma conta que não é dele. Vamos voltar à questão das ondas. Na segunda onda, uma das lutas era para a mulher poder trabalhar fora.

Isso já acontecia nas camadas pobres da população. As mulheres das classes mais baixas eram responsáveis por todo ou parte do orçamento doméstico, simplesmente porque era necessário. Era impossível sustentar todo mundo com o salário de um provedor só (e, em muitos casos, eram mães solteiras).

Logo, essa luta foi de um feminismo de classe média. Talvez hoje seja difícil enxergar isso; afinal, você fazer ou não faculdade sequer foi uma discussão em casa. Seus pais a incentivam (até obrigam) a estudar.

Há trinta, quarenta anos, a situação era diferente. As mulheres de classes abastadas eram só donas de casa, e dependiam do marido para comprar qualquer coisa. Assim, os maridos-provedores podiam controlar tudo. Tudo. Você quer comprar uma saia nova? Um maço de cigarro? Peça o dinheiro do marido. Ele pode achar que você não precisa de uma saia nova. E aí você… bom, você não faz nada. Ou briga. E fica presa ao casamento porque não consegue se sustentar sozinha. A prova disso é a tal “revolução feminista no sertão”. Agora, com as mulheres sendo responsáveis pelos cartões do bolsa família, houve mudança significativa na vida dessas mulheres.

“Ah, mas eu preferia não trabalhar, ou trabalhar meio período.” – O feminismo não é contra isso. Ele te deu essa escolha. Mas o que talvez você queira seja ganhar na mega-sena, e não ser sustentada por um homem. Você também pode mudar seus hábitos e viver de maneira frugal, optando por um emprego menos estressante ou que exija menos horas de trabalho. Caso sua profissão seja tão horrível assim, é possível que o problema não esteja na grana; esteja na escolha de carreira.

De todo modo, esse não é um problema criado pelo feminismo, mas sim pela sociedade de consumo em que vivemos. Todas as pessoas da casa têm que trabalhar porque viver é caro. Não foi o feminismo que te obrigou a sair de casa. Ele só te deu essa opção.

PS: Nunca houve a queima de sutiãs. Por favor, parem de repetir isso. 

Aaron Swartz e a misoginia na tecnologia

Aaron Swartz se suicidou essa semana e vários textos a respeito dele estão sendo publicados por aí. O assunto me interessa: apesar de não ser conhecedora do meio (não sou nerd, geek, nada disso), tudo tem a ver com depressão, suicídio, direitos autorais e, agora, misoginia.

O rapaz já havia se pronunciado a respeito do machismo no meio em que trabalhava. A Fabiane Lima (do ótimo Slut Shaming Detected) vive falando sobre como viveu momentos difíceis trabalhando com tecnologia. Aaron Swartz apontou o mesmo problema.

Traduzo integral e livremente um post do Feministing sobre Aaron Swartz:

Swartz

“O mundo perdeu um gênio quando Aaron Swartz cometeu suicídio. Perdemos também uma alma sensível disposta a analisar o lado obscuro da indústria que ele amava.

Aqui, um trecho de uma entrevista de 2007 com Swartz em que se discute a misoginia na tecnologia. Ele tinha apenas 21 anos à época.

Philipp Lenssen (entrevistador): Você pode dar alguns exemplos de misoginia ou racismo?

Aaron Swartz: Se você falar com qualquer mulher da comunidade de tecnologia, não vai demorar até que elas comecem a contar coisas horríveis e sexistas que os caras disseram pra elas. Isso as enlouquece, e com razão. Como resultado, as únicas mulheres que você vê no mercado são aquelas que aguentam esses abusos.

Eu realmente percebi isso quando eu fui para um foo camp (não sei traduzir isso), um encontro exclusivo para a elite da comunidade da tecnologia organizado por Tim O’Reilly. Os executivos, achando que ninguém estava escutando, falaram sobre como eles sempre tinham encontros importantes de negócios em clubes de strip tease e as deficiências dos  programadores em diversos países.

Enquanto isso, no próprio foo camp houve uma sessão sobre discriminação em que foi explicado para nós que o problema real não era racismo ou sexismo, mas o simples fato que as pessoas gostam de ter pessoas parecidas à sua volta.

A negação a respeito do tema na comunidade é tão grande que às vezes eu duvido que ela seja resolvida. E eu devo ser claro: não é que existam só algumas pessoas más que estão sendo preconceituosas e ofendendo os outros. Muitos desses caras de quem estou falando são meus melhores amigos. É um problema institucional, não pessoal.

Nós sentiremos sua falta, Aaron. “

 

 

 

Colocando o p… na mesa

Antes do post: não escrevi literalmente o título porque alguns sistemas de busca/empresas bloqueiam “palavrões”. Para quem é feminista, o questionamento que farei parece bobo, ridículo, clichê. Mas nem tanto. Explico já.

Quantas vezes você já ouviu uma mulher dizer que foi reclamar de algo e “colocou o pau na mesa”? Ou quantos conselhos você mesma deu: “fulana, vai lá e coloca o pau na mesa!”?

O pau é metafórico, claro. Não importa se você tem ou não o órgão sexual, o fato é que, mesmo quem o tem, não vai abrir a calça e expor o pinto numa reunião de negócios.

A gente usa a expressão para nos referirmos à coragem, audácia, bravura, valentia, firmeza. Características estas identificadas como masculinas. Uma “muié braba” sempre está na TPM, com “falta de rola” ou outro argumento tosco qualquer.

Porque ser corajoso, audacioso e valente é “coisa de homem”. Vem daí a expressão “colocar o pau na mesa”, isto é, “provou que é homem”.

Em Female Chauvinist Pigs (falarei sobre o livro após terminá-lo), Ariel Levy dedica várias páginas à crítica da ideia acima. Traduzo alguns trechos:

As mulheres que quiseram ser vistas como poderosas acham muito mais eficiente se identificar como homem [ela está falando de papéis de gênero] do que tentar elevar todas as mulheres ao nível delas. 

(…)

Judith Regan, a mais famosa e temida executiva na área editorial, costuma dizer “Eu tenho o maior pau do prédio!” em reuniões (e se refere aos seus rivais como “mulherzinhas”). Há um certo tipo de mulher – talentosas e poderosas – que nós sempre achamos difícil de descrevê-las sem utilizarmos alguma versão da frase “como um homem”. E muitas dessas mulheres não veem problema nisso. 

Depois Ariel Levy dá um tapa na cara (a autora é bastante durona).

De alguma forma nós não pensamos duas vezes sobre sermos “como um homem” ou uma “garotinha”. Como se essas concepções fizessem algum sentido. Parecidas com qualk homem? Iggy Pop? Nathan Lane? Jesse Jackson? Jesse Helms? Não é nada inteligente pensar desse jeito sobre seres humanos, mas pessoas espertas fazem isso o tempo todo.

É, Ariel Levy, a gente repete mesmo o “botar o pau na mesa” e diz que alguém tem “culhões” (leia esse texto da aniversariante do dia, Mariana Perroni, sobre o assunto culhões, testosterona e afins). Triste, mas verdade.

Eu ainda ia mais longe (ai que vergonha). Quando me sentia desafiada por alguém, dizia “o que fulano (a) não sabe é que meu pau é maior e mais grosso que o dele (a)”. Sim, eu dizia isso, e não faz muito tempo.

Horrível, porque além da ideia de que eu seria “como um homem” e estaria pronta pra briga, a ideia de ter um pau maior e mais grosso tem a ver com machucar, com sexo violento, como se fosse um estupro. (doeu assumir isso, tá? por favor não me critiquem ainda mais, eu sei que eu estava equivocadíssima e já me penitencio com isso direto.)

Termino o post com a admissão vergonhosa acima, mas também com outro tapa na cara de Ariel Levy:

Mesmo que você seja uma mulher que atinja o céu e “se torne um homem”, mesmo assim você continuará sendo… uma mulher. Enquanto nós repetirmos que “coisas de mulher” não devem ser buscadas (pelo contrário, devemos fugir delas), você está diminuindo todas as mulheres. Inclusive você. 

A primeira feminista da minha vida

Muita gente (e eu digo muita porque é muuuuuuuuuita mesmo) zoa a Lola porque ela diz ser feminista desde os oito anos de idade.

Existe idade certa pra isso? Quantos livros você deve ter lido antes de se autoproclamar feminista? É imprescindível estar matriculado numa faculdade de sociais (só vale federais, hein?!)? Participar de marchas é facultativo ou mandatório?

Se você não tiver tudo isso – e só tiver oito anos de idade, como a Lola – sua carteirinha vai ser cancelada?

Infelizmente existem feministas (ou protofeministas) defensoras das ideias acima. Qualquer coisa que foge àquilo é considerado estranho, não-feminista, tentativa frustrada de se autointitular feminista. Juro. Teve quem me chamasse de “mau caráter” por julgar meu feminismo “fake”, como se a pessoa, no Brasil, ganhasse alguma coisa em ser feminista. Ganha, sim: xingamento e preconceito. Só. Ah, e talvez algum “respeito” das pessoas o mesmo grupo, respeito este que desaparece ao sinal de qualquer deslize ideológico mínimo.

Grande parte dessas “teóricas” de feminismo brasileiras que vocês conhecem esquecem o básico do básico do básico: o pessoal é político. Já estamos na terceira onda, galera, cheguem aqui no século 21, é bacana, juro.

Com tantas regras e desconhecimento, muita gente é feminista e nem sabe. Têm medo da palavra. Não têm a menor ideia do que ela significa. A história que conto agora é prova disso. Antes de escrever o post, liguei pra protagonista e falei “vou postar sobre você”. “Mas eu não sou feminista!”, ela reclamou.

Ela não reconhece em si mesma a grande inspiração para eu ter virado feminazi. “Eu fiz o que eu tinha de fazer, era a minha vida, precisava vivê-la de acordo com meus ideais”, respondeu. É, meu grande amor, quando para viver seus ideais você precisa combater tudo o que lhe foi enfiado goela abaixo só por ser mulher, isso é feminismo. 

Voltemos a 1989. O Muro de Berlim ainda estava de pé (quase sendo derrubado, coisa linda de se ver), vivíamos no Brasil a campanha eleitoral para – finalmente – elegermos nosso primeiro presidente por voto direto após a ditadura militar. Ok, erramos, mas o clima era de festa.

Não na minha casa.

Lá, uma jovem de 34 anos, casada há 15 e com três filhos, vivia o difícil momento de se separar. Ela, que casou para ser para sempre; ela, que não tinha fonte de renda; ela, que se preocupava em como ficariam os filhos após o desmantelamento da família.

Porém, não dava mais. As coisas haviam ficado muito feias (pelas minhas lembranças, já estavam feias há bastante tempo). Depois de muito separa-não-separa, nos chamaram à sala e nos contaram a “novidade”: meu pai estava saindo de casa. Se já fossem modinha as placas de “eu já sabia”, nós três teríamos levantado uma.

O que não sabíamos, pois a crueldade humana é sempre surpreendente, é que quando ele fechou a porta às suas costas, estávamos, nós quatro, sozinhos. E ela, minha mãe, com um letreiro de “desquitada” piscando na testa, como luzes de neon.

O tal muro caiu, Collor foi eleito, e nós vivíamos com o auxílio do meu avô paterno. Meu pai achou que minha mãe “cairia em si” e clamaria pela volta dele à casa. Afinal, ele era o provedor. Ela, a mulher que naqueles quinze anos tentou trabalhar, mas sempre recebia negativas do homem que deveria querer vê-la crescer, deveria querer apoiá-la na formação da autoestima, deveria ter orgulho de ter uma companheira que, além de boa mãe e excelente esposa, ainda seria uma profissional de sucesso.

Mas, se ela fosse tudo isso, ele não poderia mais falar e fazer barbaridades. Ela não se sentiria mais um lixo e aquela conversa na sala teria acontecido anos antes. Não. Era preciso mantê-la sem ter para onde fugir; é assim que o controle funciona – não só com portas trancadas, correntes presas aos pés, grades nas janelas.

As amarras invisíveis a seguraram durante muito, muito tempo. Até que ela arranjou forças, sabe-se lá de onde (nenhum casal da nossa família havia se separado), e arrebentou com tudo aquilo.

A libertação teve um preço alto. Lembro ainda hoje do jantar de Natal daquele 1989,  três meses após a separação de fato, quando um dos familiares berrava, à mesa, que não queria ter uma irmã “desquitada”. Era vergonhoso.

A “vergonha” reverberou. No ano seguinte, quando eu estava na quinta série do colégio, convidei uma coleguinha para um passeio e ela prontamente aceitou, animada. Depois de alguns dias, me entregou uma carta. Ela pedia desculpa, mas precisava voltar atrás: seus pais não deixaram ela sair com a filha de uma mulher sem homem.

Àquela altura minha feminista favorita já tinha até outro homem em sua vida. Mas aí o problema era outro: ele era oito anos mais novo e minha mãe sorria. Ela estava feliz. Como assim ela desafiou a instituição casamento, a família, o poder do dinheiro, namorava um cara mais novo… e ainda assim estava feliz?

Como ela ousaria?

Como ela ousou denunciar agressão física à polícia, passar por exame no IML, e ainda assim reconstruir a própria vida, sem um macho para apontar os caminhos?

Como ela pôde juntar a autoestima do chão e se transformar no maior exemplo de feminismo em carne e osso que eu já tive o prazer de conhecer?

Nos anos seguintes eu fui apresentada violentamente ao que chamamos de “duplo padrão moral”. Ela, puta. Ele, garanhão. E, com ela, aprendi a xingar de volta, a bater no peito e ter orgulho de mim só porque eu sou eu, a não aceitar as migalhas da vida, a contestar o status quo.

Claro que não vou dizer que foi ali que me tornei feminista. Demorei vinte anos, ainda. O que aconteceu na época foi uma inquietação, uma sensação de que algo estava errado, de que tudo aquilo não era justo. Mas eu ainda estava aprendendo o nome das capitais da América do Sul na aula de geografia, não tinha internet para me informar em blogs (a internet não existia, risos). Era tudo muito prematuro. Porém, sem dúvida, foi meu primeiro impulso.

Apesar de eu já ter explicado tudo isso mil vezes, ela insiste que não foi o feminismo que a levou à luta. Está na hora de ela inverter esse pensamento: o feminismo existe justamente porque ela lutou. Ela e muitas outras mulheres: as sufragistas, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Betty Friedan, Adrienne Rich, bell hooks, Gloria Steinem, Maria da Penha, Pagu, Audre Lorde, Jessica Valenti. E eu. E você. 

Porque a gente faz parte disso tudo. A luta é de todas nós. Lembre-se: o pessoal é político. Mudando sua vida, você muda o mundo.

Porque sou Feminista com F maiúsculo

A Mariana (@mlaudeauser) me mandou o link de um texto no Huffington Post assinado por Soraya Chemaly.

Como o título do post diz, é sobre feminismo. Ele deixa o questionamento de porque algumas pessoas têm tanta dificuldade em se admitirem feministas. Eu traduzi, mas se você quiser ler no original (eu recomendo que o faça), o link está aqui. Ah, por falar em links, o texto original é cheeeeeeeeio deles. Talvez valha dar uma olhadinha por lá.

Porque eu sou Feminista com F maiúsculo

Katherine Fenton (24) é uma professora de jardim de infância que você provavelmente não conhecia antes de terça feira. Foi ela quem fez a pergunta que deu origem ao frenesi do “binders full of women”. No debate presidencial americano, ela teve a audácia de questionar o que Mitt Romney faria a respeito da diferença salarial entre homens e mulheres. Era uma preocupação honesta, tendo em vista o posicionamento – e endosso   – de Romney acerca de pessoas que dizem coisas como “dinheiro é mais importante para os homens”.

Sabe o que ela ganhou com isso? Um bom e velho “slut shaming” de conservadores. Eles fuçaram  página do Facebook e a conta do Twitter de Katherine para revelar que no passado ela usou álcool e talvez tenha demonstrado interesse em sexo.

Assim como Sandra Fluke, ela é apenas uma chorona que deveria calar a boca e ir pra casa. Bom, talvez Katherine não tenha memorizado o Slut Manifesto (Manifesto das Vadias; traduzirei em breve), mas ela com certeza absoluta sabe que, se um homem fizesse a mesma pergunta, ele não seria tratado dessa maneira.

Assim como o peso de Jim Lehrer não virou assunto na internet, enquanto o de Candy Crowley virou. Chloe Angyal sucintamente apontou no Feministing: “Essa merda toda é sexista, e feminismo é a luta contra sexismo”.

Mas, pergunte a muitos homens e mulheres (inclusive Katherine) e você provavelmente vai receber como resposta um “Eu não sou feminista!”. O que eles são, na verdade, é “Eu não sou feminista, mas…”.

Eles acreditam, no mínimo, no direito da mulher ao voto, em processos seletivos de trabalho sem preconceitos, em salários iguais entre homens e mulheres exercendo a mesma função, na liberdade da “dupla moral” sexual, no direito da mulher em decidir se e quando quer ser mãe, na habilidade delas tomarem suas próprias decisões, na ideia de que a roupa dela não é um passe livre para estupradores, e, bem, já que estamos falando disso, no direito da mulher em usar calças, correr em público e dirigir.

Se você perguntar aos homens, eles devem achar bacana estarem ativamente envolvidos na criação dos filhos, ou terem a liberdade de cozinhar para a família. Aliás, o que eu estou fazendo? Eu não preciso criar essa lista. Aqui vai uma lista fantástica, publicado no Dammit Janet, que deveria ser pendurada em todas as escolas, academias de ginástica e copas de escritórios:

Se você é uma mulher antifeminista e vota – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista e goza de direitos contratuais e de propriedade – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista, mas infelizmente se divorciou e ainda assim se beneficiou das mudanças do direito de família (permitindo que você tenha a guarda dos seus filhos, por exemplo) – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que faz sexo seguro, incluindo métodos anticoncepcionais e aborto (nós não diremos pra ninguém) – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que deseja ou precisa trabalhar “fora de casa” – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que trabalha e ganha o mesmo que o seu colega homem sentado na baia ao seu lado – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que foi pra faculdade – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista numa profissão antigamente vista como “masculina” – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista com direito a denunciar assédio sexual e preconceito no local de trabalho – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que precisa de creche para seu filho – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que teve licença maternidade para ter esse filho – você não lutou por isso.

E se você é um homem antifeminista cuja mãe, irmã, filha, esposa, namorada e amigas mulheres se beneficiam de qualquer das coisas acima – você certamente não lutou por isso.

(a autora não colocou o finalzinho, que é o seguinte:

Anti-feminist women love to SHRIEEEK: ‘Feminists don’t speak for me!’
No. We don’t. 
But our accomplishments — and ongoing struggles — benefit ALL of you.
You’re welcome.

Mulheres antifeministas adoram reclamar: “Feministas não falam por mim!”.
Não, não falamos.
Mas nossas conquistas – e lutas atuais – beneficiam TODAS vocês.
De nada.)

Muito agressivo pra você? Talvez você esteja se sentindo meio desconfortável? Porque, bem, você sabe… Mas pare para pensar um pouco sobre quem recebe o passe livre para ser raivoso-e-agressivo na nossa cultura. Certamente não são as garotas e mulheres, tampouco os negros. Às vezes a raiva é justificável e cabível.

Não existe uma carteirinha de feminista (se bem que seria bom a mídia tradicional aprender um pouco – o que é difícil com as empresas sendo parte de conglomerados que estão nas mãos de poucos). Também não estou “feminist-shaming” Katherine Fenton. Além disso, só porque uma mulher pergunta sobre igualdade de salários, isso não significa que ela é uma feminista. No entanto, eu estou pedindo às pessoas para pensarem no que elas estão fazendo quando reclamam do feminismo com desdém ou quando se chocam quando alguém os considera feminista.

Marissa Mayer, cujo sucesso não seria possível sem o trabalho e as vidas de feministas que vieram antes da gente, acabou de fazer isso, por exemplo (Marissa Mayer é ex vice presidente do Google que virou CEO do Yahoo; no link indicado há um vídeo em que ela diz que não é feminista).

Quando as pessoas dizem “eu não sou feminista” ou “eu sou feminista, mas…”, elas invariavelmente passam a sensação que isso é um transtorno. Serve como atestado do sucesso de pelo menos 40 anos de backlash conservador, que branda o feminismo como o trabalho demoníaco de mulheres que odeiam homens, agressivas, feias (não há pecado maior), mal humoradas, lésbicas, estéreis. Se alguém além das mulheres (com a ajuda dos seus aliados homens) tivesse feito a revolução social vista nos últimos 100 anos, todas as crianças aprenderiam a respeito (da revolução).

Mas, ao mesmo tempo em que amamos e ficamos mais e mais confortáveis em falar bem e admirar nossos líderes na luta pelos direitos civis, nós ainda sequer começamos a reconhecer as visionárias e revolucionárias que lutam pelos direitos das mulheres.

Esse é só o início. O que nós temos é uma camada fina do verniz da igualdade, que libertou uma geração de mulheres a viverem de um jeito nunca visto antes.

Isso permite que mulheres e homens mais jovens repudiem a palavra. Os mais velhos tendem a não fazer isso. Pesquisas aparecem aqui e ali explicando o fenômeno, como se isso fosse um reflexo da falência do movimento. Mas esses estudos nunca são longitudinais e nunca medem as mudanças no pensamento das pessoas ao envelhecerem. Talvez seja porque as pessoas não consideram as barreiras sistêmicas ou como elas são livres para tomar decisões individuais até elas viverem de maneira diversa por algum tempo.

Desconsiderando a questão da idade, as pessoas têm um sério problema em imaginar o que uma verdadeira liberdade significa. O feminismo é um movimento pelos direitos civis revolucionário e transformador. Nós devíamos ter orgulho das conquistas. Fogos de artifício, desfiles e festas deveriam acontecer para celebrarmos. Estátuas deveriam ser construídas; músicas deveriam ser compostas. Assim como está, nós não temos uma celebração nacional ou um marco público de qualquer tipo atestando os sacrifícios feitos no movimento para assegurar os direitos das mulheres. Pelo contrário: a história do feminismo é enterrada embaixo de uma grande negação.

Nós deixamos uma geração inteira sem conhecer o poderoso legado social do feminismo, e sedada pela ideia de que, como XOJane apontou, “comportamentos antifeministas são feministas porque feminismo dá a possibilidade de escolha”. E, mesmo que a mudança superficial seja melhor que nada, é só superficial de qualquer forma.

Quer a gente queira reconhecer ou não, o feminismo é parte do nosso genoma cultural coletivo e legado democrático. É bagunçado, pleno, conflituoso no seu entusiasmo. Mesmo assim, ele tornou o cotidiano mais fácil, simples, seguro, justo, produtivo, prazeroso e agradável para todos, exceto talvez um grupo de homens muito poderosos.

Só porque o feminismo amedronta bandidos e hipócritas que dependem da negação e manipulação, e alimentam os medos das pessoas, não significa que nós devemos nos aprofundar nas entranhas do backlash e espalhar suas táticas de intimidação. Isso acaba sendo só um desperdício de forças para sermos educados ou menos agredidos por bullies.

Nos Estados Unidos e outras nações “desenvolvidas”, nós podemos nos sentir iguais, mas nossa educação, história, imprensa, língua, tudo conspira para que as mensagens de superioridade dos homens e inferioridade feminina se perpetuem maliciosamente por baixo da superfície.

Você sabe por que garotas e mulheres nesses países têm a obsessão com perfeição?
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Não é por causa das modelos magras ou predisposição à ansiedade. É porque qualquer erro que garotas ou mulheres tenham, qualquer falha humana, um passo errado, é a validação da mensagem cultural de que elas são intrinsecamente inferiores.

Nada de igualdade financeira, representação midiática, autoridade moral, humanitária. A perfeição é o problema que resulta de termos ganhado legitimidade na luta por igualdade numa cultura lutando para manter-se dominante e dirigida por pessoas que não querem abrir mão do poder.

Lembre que essa mesma cultura, repleta de Marias da Penha e Leilas Diniz, faz com que as mulheres sejam responsáveis pela própria desgraça…. tudo, desde colocá-las como culpadas dos próprios estupros, a negá-las direitos reprodutivos. Depois, as castigam pelas “irresponsabilidades pessoais”, passando por considerá-las responsáveis pela própria vulnerabilidade financeira, ignorando que isso é resultado de sistemas econômicos que priorizam os homens como chefes de família.

As palavras são poderosas, e essa – Feminismo – não é menos que as outras. Mas, apesar de despertar medo, o feminismo não é um bloco único, e eu de maneira quero falar em nome de “todas as mulheres” ou “todas as feministas”. Sou só eu, sentada à frente do meu computador.

Eu sei que no movimento mundial pelos direitos das mulheres não há um único jeito de advogar ou militar; tampouco um jeito melhor ou “oficial”. Há tantos modos quanto existem pessoas. Como escritora, eu diariamente luto com as palavras e seus significados, porque elas dizem respeito a privilégios, força e opressão.

Nesse mundo de gente tão diversa lutando por direitos de igualdade, a polarização acontece. Mas, enquanto há incontáveis “feminismos”, o que eles compartilham é a crença que nós somos, ainda que diferentes, igualmente humanos.

Eu não estou maldizendo ou denegrindo a experiência de Humanistas/Feministas ou outros por usarem a palavra “feminista” de maneira autossuficiente. Pra mim, os benefícios reais e tangíveis da luta por fazer com que as mulheres sejam vistas como humanas são desprezados por quem se beneficia diretamente desses benefícios. Nosso inimigo comum é o patriarcado. O sistema patriarcal é opressor pra todos – exceto pouquíssimas pessoas do mundo – e eu incluo quase todos os homens nisso aí. Mas o patriarcado é um sistema construído por humanos; por isso mesmo ele pode ser destruído justamente por humanos.

E é por isso que eu sou Feminista com um F enorme, gordo, barulhento e imperfeito.

Papo de babaca

O link apareceu na minha timeline ontem à noite. Não cliquei porque não gosto do site (explico abaixo o motivo). Mas hoje ele pulou várias vezes na minha frente, e acabei clicando para ver se o texto do Alex Castro publicado no Papo de Homem sobre feminismo era bacana. Afinal, em um dos twits do próprio site eles chamaram o post de “supremo“. Vai que eu estava perdendo a oportunidade de aprender um pouco, não é mesmo? Havia esquecido como a arrogância do ser humano não tem limites. “Supremo” é um pouco demais.

De todo modo, fui ler. Começa falando como muita gente é feminista, mas não se enxerga como tal. Bacana. Explica a diferença entre feminismo e machismo, relembra que este último mata, analisa rapidamente a questão das “piadas”, faz um pequeno apanhado histórico. Tudo muito válido, mas bem basicão (entendo que o texto deve servir para apresentar o feminismo ao leitor sem conhecimento da causa).

Porém, se o autor pretende fazer um texto ~supremo~ sobre feminismo, ele não poderia escorregar num conceito importante. Alex Castro diz, com todas as letras, que não existe feminismo radical. Exatamente com essas letras, aliás: “Feminista radical não existe. Ao reclamar da patrulha das feministas radicais, por mais delicadamente que seja, você está apenas expondo seu machismo. E todo mundo está vendo”.

Hum, deixa eu ver se entendi: o problema é todo mundo ver?

É isso?

Volto já ao texto do Alex, mas agora cheguei ao ponto que me fez querer escrever esse texto – o post ~supremo~ apenas me encorajou a escrever isso hoje.

O Papo de Homem tem uma parte chamada “Cabana”. Nessa área, há um fórum online e textos exclusivos. Rolam, também, encontros presenciais. Segundo a apresentação do site, mais de 1600 homens já participaram e “desenvolveram algum nível de generosidade, potência, ludicidade, autonomia, entre outras qualidades que focamos”. Como você faz para participar? Bom, você tem que pagar R$ 150 por três meses de acesso e ser homem.

Na Cabana (não ria do nome, por favor. muito pior é a redação, que eles chamam de QG, ou seja, quartel general. ou seja, referência ao militarismo. ou seja, machista. ou seja… ufa) os participantes compartilham experiências e fazem um ~treinamento~ nos encontros presenciais.

Um clube do Bolinha, mas tudo bem. O problema está bem longe de ser esse.

Há algumas semanas eu fiquei sabendo que um dos editores do PdH postou na Cabana um texto falando muito mal da garota com quem ele estava saindo. Tenho prints de tudo. O título é “Na internet, uma linda; na real, não tem como”.

Dou um doce se vocês descobrirem o motivo pelo qual “não tem como”.

Opa!

Doce não, porque doce engorda.

E, afinal, isso impede que um cara queira namorar uma garota, segundo o editor do Papo de Homem autor do tal texto. No início do post ele diz ter conhecido uma garota por meio do Ok Cupid. É mentira. Ela era leitora do site e comentava sempre por lá.

Ele conta como eles ficaram envolvidos nessa aproximação online. Até o momento de se verem pessoalmente: “O que eu encontrei foi a decepção em forma de mulher”.

O que ele fez? Deixo a palavra com o babaca:

COITADA“.

O tal editor postou a história porque, vejam, ele não sabia como terminar com ela. Ele não namoraria uma gorda, mesmo pagando um boquete delícia!!! Poderia ser só uma história inventada para que os moços da Cabana (que estão em ~treinamento~ para se tornarem seres humanos melhores) discutissem a questão da aparência física, em como estamos paranoicos com isso. Seria uma boa discussão.

O problema é que a história era verdade e o carinha, inclusive, ficou com ela mais algum tempo.

No fim do post tem esse ps:

Ela poderia ser identificada pelos amigos dele do Facebook, ela pediu para não falar sobre a noite que tiveram. E mesmo assim ele postou num fórum.

E, como era de se esperar, ela foi identificada. O tal texto chegou ao conhecimento dela, que a partir de então solicitou sua retirada do ar. Foram meses pedindo. Enquanto isso, a garota era zoada – e a autoestima e o equilíbrio emocional dela foram pro espaço. Ela realmente sofreu com tudo.

O post foi publicado em 16 de janeiro e só foi retirado do ar há poucos dias. Eu conversei com algumas pessoas do Papo de Homem sobre isso (não vou postar aqui porque o texto está demasiadamente longo). Hoje mesmo mandei e-mail para o Guilherme, dono do site, dizendo que iria escrever a respeito dessa história e deixando o espaço aberto para eles darem sua versão dos fatos. Ele disse que leria o post depois.

Assim como deixaram para depois o momento de finalmente tirar do ar a postagem que fazia piada sobre a aparência física de uma leitora. Mas talvez eles levem a sério demais a frase do Alex – e o que importa é que ninguém estava vendo, já que “o que acontece na Cabana, fica na Cabana” (andam vendo filmes demais).

Daí pode ficar a dúvida: o que exatamente isso tem a ver com o texto do Alex? Bom, além das contradições no texto que eu já comecei a apontar (e continuo abaixo), há uma coisa importantíssima: como você pode, em público, defender os direitos das mulheres e, quando ninguém vê, tratar uma mulher (ou, simplesmente, um ser humano) como lixo?

Não, não foi o Alex que escreveu o texto zoando a garota. De qualquer forma, trata-se da mesma empresa, o mesmo meio de publicação. Você indicaria/acharia lindo um texto feminista publicado, sei lá, no Testosterona? Não, né?

Falando em Testosterona, aliás, querem saber o que o PdH tem em comum com o blogueiro da MTV? Ambos retuitaram Silvio Koerich e, no dia da prisão dos responsáveis pelo site pelo site misógino, eu e outras feministas questionamos pelo Twitter a ligação entre o PdH e o Koerich.

O que responderam? “Estamos num churrasco aqui no QG, bêbados, e não vamos responder nada!”

O Guilherme estava viajando e, ao tomar conhecimento de tudo, entrou em contato comigo e com outras pessoas – Alex copiado no e-mail – e tentou resolver a cagada feita por um dos seus funcionários (o tuite foi apagado). Eu sei quem foi a pessoa que tuitou, aliás.

A partir desse fato, o Alex Castro escreveu um texto pedindo desculpas, admitindo o erro e dizendo que eles iam melhorar e etc. Ao mesmo tempo, o post da Cabana estava no ar, fodendo com a vida da garota.

Ah! Mas vamos fingir que somos bacanas, vai que alguém acredita?

Muita gente acredita. Vejo feministas retuitando qualquer coisa escrita pelo Alex. Eu sei que um homem feminista é extremamente charmoso, mas fica a dúvida: será que alguns deles não se dizem feministas só para ficarem bem na fita?

Bom, eu, na verdade, não consigo achar sexy um homem que não seja feminista…

Porque é muito fácil dizer “ei, eu já escrevi sobre feminismo” e agir de maneira contrária. O próprio autor reconhece a existência desses caras: “Nada pode ser mais constrangedor do que ver um homem, até então sensível e sensato, se defendendo de acusações de machismo seja dando carteirada (“não posso ser machista porque escrevi isso ou fiz aquilo”)”.

Fiz algumas críticas ao post do Alex no Twitter. Alguém citou a arroba dele e ele, como sempre, veio me questionar. Eu não tinha o menor interesse em conversar, até porque ele veio logo com aquela postura de “o que posso fazer para te fazer feliz?”. Gente? Só há duas maneiras de um homem me fazer feliz: me comendo ou me oferecendo um trabalho bem remunerado. De resto, eu não PRECISO de homem nenhum, especialmente para ser FELIZ (essa é uma busca só minha).

Não conseguem enxergar quão condescendente é essa postura? Pois bem. Voltando ao texto. O autor diz “não existe feminismo radical”, e foi uma das coisas sobre as quais falei no Twitter. Existe SIM feminismo radical. É uma corrente teórica pouco difundida no Brasil, mas com bastante força nos Estados Unidos.

E não tem nada a ver com ser ~radical~ (eu tive um professor de Sociologia da Comunicação que usava a palavra como sinônimo para algo muito bom). Caitlin Moran usa a palavra “estridente” em Como Ser Mulher para se referir a feministas mais incisivas. Justamente porque ela SABE sobre o quê estava escrevendo e que, se ela falar “feminista radical”, ela está se referindo a quem segue a ideologia radfem.

Claro que o público não iniciado na teoria feminista pode não conhecer o termo, mas se você quer ENSINAR milhares de pessoas, que tal se informar um pouco mais? E, se alguém apontar o erro, que tal admitir e não responder uma bobagem?

Poxa, Alex, MUITO OBRIGADA por dizer o que é importante e o que não é importante no movimento feminista!!! Obrigada, obrigada, obrigada. Não sei o que eu faria sem seu conhecimento! Obrigada por me iluminar!

Ele segue falando besteira no texto. No item 15, diz como a culpa do machismo é também das mulheres. Concordo! Mas daí o que ele faz? Em TODOS os exemplos de pais criando os filhos de maneira machista, ele coloca como personagem… as mães!

Porque é claro que apontar o dedo pro oprimido e colocar a mãe como a responsável pela educação parental é muito revolucionário e nada machista… O curioso é que vi muita gente criticando a página Cara, sua namorada é machista por esse motivo – e daí as pessoas acham bonito que um texto do Papo de Homem faça a mesma coisa? Porque o texto foi assinado por um homem e postado num lugar dado a machismos ele é mais válido? Vamos parar com o complexo de vira-latas e parar de abanar o rabo pra qualquer pedaço de osso que jogam pra gente? Nós não precisamos disso.

É preciso lembrar que a luta é de todas nós e que o fato de sermos mulheres não afasta a possibilidade de termos comportamentos machistas. Mas é como diz o texto da Paula Mariá citado na tal discussão acima linkada: “Essa lógica [de que é pior o machismo perpetuado por uma mulher do que por um homem] nada mais é do que uma clássica culpabilização da vítima, as mulheres são justamente o grupo oprimido e sim, internalizaram o olhar e julgamento machistas sobre si mesmas e sobre as outras, essa é inclusive a maior arma do opressor: Ter o oprimido em suas mãos.”.

Uma coisa é nós falarmos para uma amiga que ela está tendo atitudes machistas. Ou, num grupo formado por mulheres, conversarmos sobre como nossas mães nos criaram com “ideais” do patriarcado. Outra completamente diferente é apontar o dedo na cara do oprimido num site voltado ao público masculino!

Daí depois, no item 23, ele fala sobre como o corpo da mulher é da mulher. Discursa sobre o aborto: você, homem, tem que respeitar qualquer decisão que sua namorada tome. Sabe o motivo? Pra ser MÁSCULO.

Não há nada mais másculo do que ter a hombridade de ficar calado na hora certa.”

Porque, é claro, é tudo sobre eles! Sobre tornar o CARA um ser humano de valor – não que ele precise de fato respeitar as escolhas da mulher. Pode? Não, não pode.

(nem vou fazer comentário sobre a palavra “hombridade” – que tem a ver com ser VARONIL, isto é, HOMEM; tampouco sobre “histérica”, que só é usada para nos referirmos… às mulheres.)

Por isso, pra mim, tal texto é apenas mais do mesmo; uma tentativa de parecer bacana para, quando postarem bobagens sexistas, poderem dizer MAS EI, A GENTE TEM UM FEMINISTA AQUI E VÁRIOS TEXTOS SOBRE O TEMA.

Muita gente acreditou. Eu, não.