Hipocrisia social obrigatória

Essa madrugada soube das fotos e vídeos íntimos de uma jovem que estavam rolando no Facebook. Agora já tiraram do ar, mas eu cheguei a ver. Pior: li os comentários.

Algumas pessoas defendiam a garota, mas basta dar uma olhada no Twitter para ver onde as pessoas chegam para xingar alguém.

“Vazamento” de vídeos e fotos eróticas não é novidade. Com a internet, a coisa se espalha rapidamente. No momento seguinte está todo mundo falando a respeito. O nome da garota tá nos trending topics desde ontem. Aí eu pergunto: por que não está o nome do cara?

Por que em tudo que se refere a sexo a mulher é sempre xingada e julgada, e o cara sai como o COMEDOR, mesmo que tenha feito a cretinice de expor a intimidade do casal?

Foi assim com aquela assessora de Brasília que acabou na capa da Playboy. Ela foi demitida. O cara que estava com ela no vídeo continuou exercendo as funções como se nada tivesse acontecido.

Bom, na verdade, nada aconteceu. O que está errado é darem tamanha importância à sex tape, porque sexo… bom, há sete bilhões de pessoas no mundo. Poucas delas foram geradas com o auxílio dos médicos. Quer dizer: fazemos sexo sim. Pensamos em sexo o tempo inteiro. Queremos que nossas vidas sexuais sejam melhores. Então porque mesmo que nos incomodamos tanto com a vida sexual alheia?

É o que Gaiarsa chama de “hipocrisia social obrigatória”. Todo mundo fode. Quem não fode, quer foder (claro que existem exceções, mas…). O psiquiatra fala sobre “a infinita estupidez humana e sua arte suprema de manter a si mesmo e aos próximos eternamente infelizes. Todos vigiando a todos para que ninguém faça o que todos gostariam de fazer – principalmente amar, rir, dançar, cantar. Só na hora certa, no lugar certo!”.

Eu incluiria um “sem câmeras envolvidas” à última frase acima. Porque isso acontece direto. Lembro ter contado em uma das minhas histórias que tirei algumas fotos. Coloquei a observação: “fique sempre com a câmera”.

Sei que é completamente maluco a gente não poder confiar no cara com quem partilhamos a intimidade. Nem estou falando de amor, mas de respeito. Você imagina que, se está transando com alguém e vocês decidem fazer vídeos e fotos, aquilo ficará restrito ao casal. Pra vocês curtirem, para se lembrarem de bons momentos, para se excitarem.

Infelizmente, não é assim que funciona. Esse material é bastante usado por ex parceiros vingativos e babacas. Se ele (o homem) soubesse que teria o mesmo tratamento ora dispensado às mulheres, ele jamais jogaria o conteúdo online. Jamais.

Mas não estou sugerindo que passemos a tratar os homens da mesma maneira, e sim que passemos a ver o sexo como algo natural e saudável. Não há nada de errado em trepar, em fazer caras e bocas para a câmera, em fazer boquete.

Todos nós fazemos. 

Sexo não tem qualquer relação com caráter; alguém transar muito ou pouco, com diversos parceiros ou só com um; ser celibatário ou ser rodado; nada disso interfere em questões morais.

A exposição e a reação das pessoas ao último caso, sim, dizem respeito ao caráter. Porque se você SABE (não precisa ter mais do que dois neurônios pra isso) que a atitude do ex foi deplorável, mas compartilhou as fotos, você é um (a) babaca, também. Você também pode pensar “e se fosse comigo?” e evitar falar sobre detalhes da anatomia da garota.

Quem compartilha/xinga/zoa é tão criminoso quanto o cara que está nos vídeos.

Ao final disso tudo a garota ficará devastada. Você quer mesmo ser responsável por fazer alguém se sentir mal? De repente acontece uma tragédia, como aconteceu com a Amanda Todd, e todo mundo fica com cara de tristinho dizendo “o bullying tem que parar”. Isso que muita gente está fazendo É bullying!

Mesmo contrariada (porque no meu mundo de faz de conta eu não deveria ter que falar isso), dou algumas dicas para o mesmo não acontecer com você. As pessoas não deixarão de tirar fotos peladas, mas infelizmente é necessário tomar algumas precauções:

  • Nunca, jamais, em tempo algum tire fotos/faça vídeos em que você possa ser identificada facilmente. O rosto, claro, não deve aparecer, mas tatuagens, por exemplo, mostram logo quem você é.
  • Fique com a câmera quando acabarem a brincadeira. Aí você escolhe quais fotos quer compartilhar.
  • Não deixe que as fotos ou vídeo sejam feitos no celular. Isso permite que o cara envie os arquivos imediatamente, sem você ver.
  • Se for fazer uma suruba/ménage, peça aos participantes para deixarem os celulares e câmeras em outro cômodo. É mais difícil controlar se alguém está fotografando com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo (sem contar que esse é um momento para relaxar, não para ficar grilada).
  • Caso vá compartilhar as fotos e vídeos, não envie do seu e-mail pessoal. Crie um outro, totalmente fake, para se resguardar.
  • Não saia com babacas. Sei que essa parte é a mais difícil, porque muitas vezes isso não vem escrito na testa deles, mas observe. Se ele é babaca com outras pessoas, ele será babaca com você.

Divirtam-se. E se cuidem, sempre.

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