Há um tempinho eu conheci um rapazote. Nossa relação era muito boa; sexualmente não éramos extraordinários, mas conversávamos e ríamos e nos divertíamos e nos respeitávamos.
Eu achava muito bacana.
Tão bacana que na véspera do aniversário dele eu fiz brigadeiro. Não, não foi de colher. Enrolei um por um, passei no confeito, coloquei na forminha. Comprei um bolo bonito em uma doceria muito elegante. Fiz tudo tão direitinho que sequer esqueci das velas.
Tudo surpresa.
Ele foi para a minha casa naquela noite. Levou até a roupa para ir trabalhar no dia seguinte. Transamos como sempre, conversamos como sempre. Poucos segundos antes da meia-noite eu levantei e fui até a cozinha pegar as guloseimas. Acendi as velas e comemoramos o aniversário dele em cima da cama.
Ainda lembro dele feliz de manhã, de camisa branca e banho tomado.
E daí ele desapareceu.
Desapareceu. Sumiu. Evaporou.
Eu viajei logo em seguida, mas ao voltar tentei marcar novo encontro. Ele dava como desculpa o excesso de trabalho. Compreendi durante um tempo, mas depois finalmente me dei conta de que estava sendo enrolada.
Fiquei me perguntando onde eu havia errado. Não rolou paixão, mas nunca é bacana ser dispensado, especialmente quando você curte a pessoa. Eu, maluca e agressiva, tinha segurado todo o meu descontrole naquela relação – não forcei nada; naturalmente consegui ser uma garota maneira.
Mesmo assim ele me deu perdido em cima de perdido. E eu, claro, fiquei me questionando sobre o que eu poderia ter feito diferente. Revi todas as conversas, as saídas, as noites que passamos juntos. Procurei incansavelmente os motivos que poderiam ter nos afastado. Não encontrei.
A vida continua e me mudei para outra cidade. Perdemos contato (afinal, ele não fazia tanta questão assim de permanecer ligado a mim…). Numa dessas redes sociais da vida, anos depois, nos “reencontramos”.
Eu, como escorpiana vingativa que se preze, xinguei muito. Reclamei, esperneei. No segundo semestre do ano passado, ciente de que eu também erro, resolvi dar ouvidos ao rapaz. Ele, que se dizia arrependido, tentou explicar.
Segundo o mancebo, a surpresa do aniversário foi além do que ele podia lidar. Nas palavras dele, se relacionar com uma mulher mais velha, empregada (sim, eu já tive carteira assinada. long time ago), com carro e morando sozinha foi demais. Achou que, mais novo e ainda na faculdade, iria ser abandonado ou algo assim. Decidiu fugir antes.
Achei a conversa muito coisa de filme e de revista feminina, dessas que dizem que os homens têm medo de “mulher poderosa”. Mas ele dizia que iria até São Paulo se desculpar, que não fazia isso naquele momento porque tinha medo de eu não o receber (e havia uma grande chance disso acontecer).
De coração mole por causa da depressão e consciente das cagadas que eu mesma já cometi, resolvi perdoar. Voltamos a nos falar com alguma frequência, sempre pela internet. Combinamos que sairíamos quando eu viesse ao Rio. Não sei as intenções dele, mas as minhas nem eram (muito) sexuais (afinal meu nome é Letícia e eu não dou viagem perdida).
Eis que eu venho ao Rio e mando e-mail dizendo que estava na cidade. Quem sumiu de novo? Quem? Quem? E depois respondeu o email dizendo que acha melhor não nos vermos? Quem? Quem?
Durante um tempo eu realmente achei que o problema fosse eu. Pensei que eu fosse chata, feia, ruim de cama, sei lá. Em muitas vezes eu errei de verdade; fui pegajosa demais, agressiva demais, ansiosa demais. Naquela relação, porém, não fui nada disso. Mesmo assim, por causa dessa autoestima de merda, achei que a culpa tinha sido minha. De novo.
Anos e anos depois o garoto faz exatamente a mesma coisa. Eu estava quietinha no meu canto, sem mexer com ninguém e com a libido no chão. Quietinha.
Pelo menos dessa vez eu sei que a culpa definitivamente não é minha. É dele, só dele, e é ele que tem de resolver suas questões internas. Achei patético que eu tenha dado ideia para ele mesmo depois de tudo. Foi um exercício de perdão, todavia. Que não serviu pra muita coisa, mas pelo menos eu percebi que sim, eu sou capaz de perdoar, mesmo que depois eu veja que a pessoa não merecia.
E vida que segue. Mas hoje, just in case, vou ao cinema sozinha.
