O casório da cabra

Eu criei um jeito de saber se devo ou não ler algumas coisas. Quando enxergo a palavra “homossexualismo” no meio do texto, passo batido. O mesmo acontece ao ver “Valerie Solanas” e “Scum Manifesto”. Recentemente incluí “Femen” nessa lista.

Porque, por mais que existam correntes diferentes na militância, ninguém que fala a sério desses assuntos sequer considera utilizar tais termos.

Só que hoje rolou um artigo assinado por J.R. Guzzo, publicado na revista Veja. O título? “Parada gay, cabra e espinafre”. Você com certeza está pensando “o que uma coisa tem a ver com a outra?”. Pois é. Nada, exceto na cabeça do articulista de Veja e de seu diretor de redação que deixou tal aberração ser publicada.

Acabei de ver o deputado Jean Wyllys dizer que fazer piada da Veja é inútil. Eu tendo a concordar na maioria dos casos, mas quando um texto atinge níveis absurdos de preconceito, simplesmente não dá para ficar quieta.

Uma coisa é quando a gente vê esses blogs com 0 comentários em cada postagem. Dá para ignorar. A Veja, por outro lado, é a revista mais lida do país, gostemos disso ou não. Segundo informação do site da Abril, a tiragem semanal da revista ultrapassa 1,2 milhão de exemplares. Cada revista é lida por, em média, oito leitores (porque fica em consultórios, salões de beleza, etc.)

São quase nove milhões de pessoas lendo; não dá para simplesmente ignorar.

Fingir que essa revista não tem importância é ser muito ingênuo ou muito burro. Tem, sim. Pode não ter diretamente na sua vida, mas a Veja é, sim, a revista mais importante do país.

Bom, isto posto, passemos à análise do texto publicado na edição dessa semana. Eu não vou copiá-lo inteiro; a @bruxaOD já o fez (e vocês encontram aqui). O artigo é todo ruim, mas algumas partes parecem saídas de uma obra de realismo fantástico. Uma obra ridícula, diga-se de passagem.

O *autor* começa assim: “Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser homossexual era um problema.”. Eu não poderia concordar mais. Você até pensa que pode ser um texto positivo, apontando como ainda somos preconceituosos, como  a vida sexual do outro ainda nos  importa, etc, etc. Mas ele não poderia terminar nessa frase. Ele vai além.

Na segunda frase ele manda um “homossexualismo”, o que já seria motivo para eu deixar o texto de lado, como disse no início do post. Porém, Guzzo comete verdadeiras atrocidades:

Ainda agora, na eleição municipal de São Paulo, houve muito ruído em tomo do infeliz “kit gay” que o Ministério da Educação inventou e logo desinventou, tempos atrás, para sugerir aos estudantes que a atração afetiva por pessoas do mesmo sexo é a coisa mais natural do mundo.

Mas é, moço. É a coisa mais natural do mundo.

Mas aí é que está: apesar de sua aparente ineficácia como caça-votos, dizer que alguém é gay, ou apenas pró-gay, ainda é uma “acusação”.

Verdade. Não é louco isso? Chamar alguém de “gay” (ou mulherzinha, viadinho, bichona) É ofensivo. Em 2012.

Para a maioria das famílias brasileiras, ter filhos ou filhas gay é um desastre – não do tamanho que já foi, mas um drama do mesmo jeito.

E o seu texto, senhor Guzzo, será lido por incontáveis pais e mães por aí – eles continuarão morrendo de medo dos filhos um dia se assumirem homo ou bissexuais. Well done!

O kit gay, por exemplo, pretendia ser um convite à harmonia – mas acabou ficando com toda a cara de ser um incentivo ao homossexualismo, e só gerou reprovação.

(segure o vômito a cada vez que esse senhor usa a palavra “homossexualismo”.)

Gerou reprovação de quem? Quem achou que era um incentivo à homossexualidade? É um incentivo à aceitação da diversidade, o que é bem diferente.

O fato é que, de tanto insistirem que os homossexuais devem ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espécie ameaçada, a ser protegida por uma coleção cada vez maior de leis, os patronos da causa gay tropeçam frequentemente na lógica – e se afastam, com isso, do seu objetivo central.

Os gays lutam pelo quê? Pelo direito de não serem discriminados na rua. De se casarem legalmente. Isso é querer mais ou mais direitos? Esses direitos já não são garantidos a quem é hetero? Os gays não querem ter MAIS direitos; querem ter os MESMOS direitos.

E ele ainda arremata o parágrafo com um “estão se afastando do seu objetivo central”. Adoro essa gente que não conhece uma vírgula da militância e diz o que o OUTRO deve fazer. Só que não.

O primeiro problema sério quando se fala em “comunidade gay” é que a “comunidade gay” não existe – e também não existem, em consequência, o “movimento gay” ou suas “lideranças”. Como o restante da humanidade, os homossexuais, antes de qualquer outra coisa, são indivíduos.

Não estou falando? É ele quem sabe o que é a militância, minha gente! Que gênio!! Ah, guardem a frase do “os homossexuais, antes de qualquer coisa, são indivíduos”. Em breve ele irá se contradizer nisso.

Na verdade, a única coisa que têm em comum são suas preferências sexuais – mas isso não é suficiente para transformá-los num conjunto isolado na sociedade, da mesma forma como não vem ao caso falar em “comunidade heterossexual” para agrupar os indivíduos que preferem se unir a pessoas do sexo oposto.

Aqui o autor usa uma falsa simetria. Indico este texto do Tulio Vianna a respeito.

Outra tentativa de considerar os gays como um grupo de pessoas especiais é a postura de seus porta-vozes quanto ao problema da violência, imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da população. (…) Os homossexuais são vítimas de arrastões em prédios de apartamentos, sofrem sequestros-relâmpago, são assaltados nas ruas e podem ser mortos com um tiro na cabeça se fizerem o gesto errado na hora do assalto – exatamente como ocorre a cada dia com os heterossexuais; o drama real, para todos, está no fato de viverem no Brasil. E as agressões gratuitas praticadas contra gays? Não há o menor sinal de que a imensa maioria da população aprove, e muito menos cometa, esses crimes; são fruto exclusivo da ação de delinquentes, não da sociedade brasileira.

Risos eternos. É a mesma falácia de quem diz que não existe violência de gênero. Nem todos os crimes perpetrados contra mulheres, gays ou negros são por causa do machismo, homofobia ou racismo. Mas há crimes cometidos SÓ por causa disso.

Evidente que a “imensa maioria da população brasileira” não concorda com isso. Imaginem se 100 milhões de brasileiros cometessem crimes. De qualquer tipo. Pois é.

Qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo é considerado “homofóbico”; insiste-se que sua publicação não deve ser protegida pela liberdade de expressão, pois “pregar o ódio é crime”. Mas se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for. Na verdade, não obriga ninguém a gostar de ninguém; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos.

Outra preguiça: quando levantam o discurso da “liberdade de expressão”. Sou super a favor de qualquer liberdade; no entanto, as pessoas devem ser responsabilizadas pelo que fazem ou dizem. O que se espera é isso: responsabilização.

E, nossa, o espinafre deve ficar realmente muito chateado quando alguém não gosta dele, né? Ops, espinafre não é gente? Hum. Aguarde que já já o autor coisifica DE NOVO os homossexuais.

Há mais prejuízo que lucro, também, nas campanhas contra preconceitos imaginários e por direitos duvidosos. Homossexuais se consideram discriminados, por exemplo, por não poder doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma história clínica de diabetes, hepatite ou cardiopatias.

Eu também não posso doar sangue, pois sou tatuada e “promíscua”. Lá na década de 1980, quando o HIV ainda era um vírus quase desconhecido, tal restrição até fazia sentido. Hoje, com o avanço da medicina, manter tais proibições é puro preconceito. Não existe mais “grupo de risco” baseado no que se faz na cama. Diabéticos e cardiopatas não doam sangue porque isso pode fazer mal a eles mesmos (como pessoas até 50 quilos). Hepatite é transmissível pelo sangue.

O mesmo acontece em relação ao casamento, um direito que tem limites muito claros. O primeiro deles é que o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa. Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condições que quiserem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em público e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco.

Os limites foram impostos por quem?

Se casais homossexuais podem livremente viver como casais, celebrar bodas e manter uma vida matrimonial, isso não é um casamento? Daí você pode se perguntar por qual razão, então, os gays querem um papel. Porque sim. Porque faz parte da nossa cultura, porque é válido para questões de herança, para o plano de saúde, para comprar um apartamento.

Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar. Não pode se casar com a própria mãe, ou com uma irmã, filha, ou neta, e vice-versa. Não poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorização dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estará cometendo um crime. Ninguém, nem os gays, acha que qualquer proibição dessas é um preconceito. Que discriminação haveria contra eles, então, se o casamento tem restrições para todos?

Essa parte é, talvez, a mais inacreditável. Como pode? E, aparentemente, a direção da revista achou SUPER bacana, porque a ilustra do artigo… é uma cabra.

A mais nociva de todas essas exigências, porém, é o esforço para transformar a “homofobia” em crime, conforme se discute atualmente no Congresso. Não há um único delito contra homossexuais que já não seja punido pela legislação penal existente hoje no Brasil. Como a invenção de um novo crime poderia aumentar a segurança dos gays, num país onde 90% dos homicídios nem sequer chegam a ser julgados? A “criminalização da homofobia” é uma postura primitiva do ponto de vista jurídico, aleijada na lógica e impossível de ser executada na prática. Um crime, antes de mais nada, tem de ser “tipificado” – ou seja, tem de ser descrito de forma absolutamente clara. Não existe “mais ou menos” no direito penal; ou se diz precisamente o que é um crime, ou não há crime. O artigo 121 do Código Penal, para citar um caso clássico, diz o que é um homicídio: “Matar alguém”. Como seria possível fazer algo parecido com a homofobia? Os principais defensores da “criminalização” já admitiram, por sinal, que pregar contra o homossexualismo nas igrejas não seria crime, para não baterem de frente com o princípio da liberdade religiosa. Dizem, apenas, que o delito estaria na promoção do “ódio”. Mas o que seria essa “promoção”? E como descrever em lei, claramente, um sentimento como o ódio?

Esse parágrafo me irrita sobremaneira. Isso porque, para quem não entende muito bem como acontece a tipificação de um crime, pode parecer fazer sentido. Mas só parece. É evidente que há meios de se tipificar um crime de ódio. Não é porque o ódio é um “sentimento” que ele não pode ser mensurado.

No mesmo artigo 121 citado pelo articulista existe a forma tipificada do crime, conforme abaixo:

§ 2º - Se o homicídio é cometido:

I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe;

II - por motivo fútil;

III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum;

IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido;

V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime.

Nossa, como vamos identificar o que é um motivo torpe ou fútil, senhor Guzzo? Pois é. É por isso que as pessoas estudam doutrina e jurisprudência! Direito não é a mera aplicação das leis, meu caro.

Os gays já percorreram um imenso caminho para se libertar da selvageria com que foram tratados durante séculos e obter, enfim, os mesmos direitos dos demais cidadãos.

Opa! Menos o casamento, porque isso aí é só pra quem pode procriar.

Bom, acabei copiando quase todo o artigo. Há outras frases escritas por esse senhor que renderiam verdadeiras teses de mestrado. É muita merda e preconceito junto. Há um longo caminho pela frente, amigos. Sigamos.

Estreiteza de mente

Tenho muitos amigos gays. Um deles é bem conservador, ainda que ele não se enxergue dessa maneira. Conversávamos durante um almoço e eu disse que as atitudes dele eram contraditórias. Defendi a tese de que ele deveria apoiar outras minorias, por saber como é fazer parte de uma. “Não acho”, respondeu. “Minha vida é totalmente normal, não deixo de fazer nada por ser gay.”

- Você pode beijar seu namorado onde você quiser?

- Não, ele respondeu com um fiapo de voz.

Isso porque ele mora em São Paulo, a maior cidade do país, cosmopolita e não sei mais o quê. É, nesta mesma cidade onde pessoas tomam lâmpadas na cara só por alguém desconfiar da sua orientação sexual. É, nesta mesma cidade onde amigos já tiveram de correr pelo meio da rua para fugir de agressores. E não foi uma e nem duas vezes, não.

A intolerância com o outro se expõe das mais diversas maneiras. O que eu não consigo compreender é essa coisa de não aceitar que um outro grupo tenha direitos. Ninguém está tirando o seu direito, só aumentando a gama de proteções. Hoje um rapaz fez a pergunta no Twitter: “se um gay e um hetero brigarem, o hetero não pode bater no gay?”. A hipótese é muito simplista, mas exemplifica bem como se comporta nossa sociedade, cheia de “achismos” idiotas e retrógrados.

É como a coluna de Guilherme Fiúza na revista Época. O articulista começa o texto dizendo que a ideia do dia do orgulho hetero é “idiota, mas coerente”. Segundo ele, a instituição da data é uma espécie de resposta à “exacerbação da cultura gay”. Para Fiúza, “quem não tem orgulho gay, ou não simpatiza com a causa, está na berlinda”.  Honestamente não acho que é necessário haver um “orgulho gay” (mas tenho), só que defendo com veemência que não exista nenhum tipo de restrição a qualquer outra pessoa, nem baseado em orientação sexual, nem em raça, nem em condição social, nem mesmo pela roupa que a pessoa veste. Disseram em um comentário no blog da Lola que eu defender isso era utopia (a crítica era ao fato de eu reclamar de patrulharem minha buça), “que os hippies já tentaram isso na década de 1960 e não conseguiram”. Talvez tenham razão e a luta seja, no final, inglória, mas eu não consigo viver no mundo sem tentar aparar algumas arestas. Lembro que num mundo em que se acha normal patrulhar a vida sexual de alguém (seja homo, hetero, pan; mono ou poligâmica; puta ou santa), também se acha normal patrulhar até cortes de cabelo.

 

Fiúza deixa tudo muito mais nebuloso ao longo do texto. Diz que o dia do orgulho hetero (zzzzzzzz) “é herança legítima do movimento gay, ou pelo menos de sua face totalitária, difundida pelos evangelizadores do politicamente correto”. Hã? Isso foi a sério? Face totalitária do movimento gay? E se ser politicamente correto é defender que sejamos todos iguais formal e materialmente, então eu sou assim.

 

O que me deixa perplexa é que já passou da hora de pararmos de reverberar esses achismos, como o fez o tal garoto da frase infeliz no Twitter. A internet está aí, com incontáveis artigos debatendo e explicando as razões pelas quais alguns grupos precisam de leis especiais, como é o caso da Maria da Penha ou da homofobia. É preciso parar de repetir à exaustão o tal “somos todos iguais perante a lei”, porque o ordenamento jurídico não se resume a uma frase; existe todo um arcabouço legal e teórico para sustentar o tratamento desigual de quem é, na prática, desigual. 

 

Eu não poderia falar melhor sobre isso do que os autores abaixo. Recomendo todos, sempre. 

 

O dia do medo macho, por Eliane Brum

Igualdade e falsas simetrias, por Túlio Vianna  

Que vergonha de ser hetero, por Leonardo Sakamoto 

A eterna parada dos sem noção, por Lola Aronovich

Os perigos do nada contra, mas, por Matheus Pichonelli
Carta aberta ao prefeito Gilberto Kassab, por Jean Wyllys

 

E, pra terminar, um vídeo que alguém me mandou no Twitter recentemente (desculpe, não lembro quem é e não posso dar o crédito).