Uma das mais famosas frases de defesa do feminismo (como se precisássemos disso) é “o feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todos os dias”. O assassinato de mulheres pelo próprio parceiro é o ponto final de histórias de violência que muitas vezes se prolongam por décadas.
Segundo dados da ONU, 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência durante a vida. Tal número representa duas a cada três mulheres.
Às vezes a gente vê isso acontecendo, reconhece as marcas de agressão física, percebe que alguém está correndo risco, mas não fazemos nada. Aqui no Brasil temos aquele ditado de “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Recusamos ajuda durante, e depois, quando o crime escalou para algo irreversível – o assassinato -, temos a atitude de culpar a vítima.
“Ah, ela ficou lá porque quis”, “se ela tivesse terminado”, “alguma ela aprontou”. E perdoamos o assassino: “ele estava descontrolado”, “agiu sob violenta emoção”, “ele a amava demais”.
O caso Pistorius é emblemático nesse sentido. Como observou Jessica Valenti nesse texto (em inglês), “apenas um dia após atirar em Steenkamp [a namorada do atleta] quatro vezes, Pistorius tem sido descrito como “calmo e positivo” e “inspirador”. Ela? É chamada de “loura de pernas longas”".
Se você não está familiarizado com o crime, um pequeno resumo: Pistorius é aquele atleta que correu nas Olimpíadas de Londres de 2012 com próteses nas duas pernas. Todo mundo aplaudiu, achou o máximo, se inspirou na história do homem que, apesar de tudo, não desistiu do esporte.
Um vencedor, dissemos.
Esse mesmo homem matou a tiros a namorada na última quinta-feira. Primeiro, a notícia foi a de que ela teria entrado sorrateiramente na casa do atleta para surpreendê-lo e ele a confundiu com um ladrão.
Os fatos foram se desenrolando e, até agora, o que se sabe é que a modelo Reeva Steenkamp foi morta no banheiro da suíte. Os últimos detalhes revelados indicam que ambos estavam deitados na cama (a posição dos lençóis mostra que havia duas pessoas deitadas). Reeva e Pistorius vestiam roupas de dormir e chegaram ao condomínio do atleta às 18h do dia anterior. Duas horas antes do assassinato, a polícia e os seguranças do condomínio foram chamados porque os vizinhos ouviram uma briga entre o casal.
Agora, surgiu na cena um bastão de críquete coberto de sangue – além de Reeva ter ferimentos no crânio. Um dos tiros atingiu o quadril da modelo, que teria se escondido no banheiro – e os outros três tiros foram na cabeça de Reeva. Machucados na mão dela indicam que ela teria tentado “proteger” a própria cabeça.
A história é toda horrenda e assustadora. Mas ela nos aponta coisas que insistimos em não enxergar. A primeira delas é que violência doméstica acontece em qualquer classe social. Em segundo lugar, que pessoas “acima de qualquer suspeita” na vida social podem ser, na verdade, criminosos frios e agressivos. Em terceiro, que esses crimes poderiam ter sido evitados – no caso de Pistorius e Reeva, a polícia já havia sido chamada outras vezes à casa do atleta em razão de distúrbios entre os dois.
Quarto e muito, muito importante: a cobertura midiática de crimes como esse insiste em culpabilizar (ou apagar) a vítima, costumeiramente mostrando o agressor como um cara bacana, “que ama demais”. Foi assim no caso Eloá e no de Ângela Diniz. Nesse último, o assassino Doca Street matou a companheira para “proteger sua honra” e “sob violenta emoção”. E chegou a ser absolvido no primeiro julgamento (e condenado depois a 15 anos de prisão).
Chega de romantizar crimes contra mulheres.
Não há nada romântico em matar alguém.
Isso não é “crime passional”. É violência de gênero. É ainda mais grave do que um latrocínio (roubo seguido de morte), porque essas pessoas confiaram nos parceiros e decidiram levar uma vida com eles.
Traduzo um trecho do texto de Jessica Valenti sobre o caso Pistorius porque é perfeito e aponta exatamente o que falei acima:
A conversa sobre assassinatos decorrentes de violência doméstica não passa de um conto de fadas – uma narrativa criada para fazer a loucura ter sentido. Afinal de contas, é mais confortável pensar que Belcher [um americano que deu nove tiros na esposa recentemente] tinha algum problema mental do que admitir que alguém que nós admiramos tanto era um agressor violento e controlador. É mais fácil pensar que Pistorius acidentalmente atirou em Steenkamp do que admitir que o assassinato era o final previsível para o relacionamento violento.
Por isso nós culpamos as mulheres mortas pela violência impensável cometida contra elas. Fazemos isso em parte por causa da misoginia, mas também porque isso dá uma falsa sensação de segurança. Dias após ser morta, a mulher de Belcher foi criticada por chegar tarde em casa (que abuso!), acusada de tentar deixar o marido e “levar o dinheiro dele”. Pelas descrições sexuais de Steenkamp, tenho certeza que logo alguém vai sugerir que ela de alguma forma “pediu por isso” – ela estava provocando ciúme em Pistorius ou paquerando demais. Nós precisamos acreditar que essas mulheres tiveram alguma culpa na violência, porque se não isso poderia acontecer com qualquer uma de nós. (Nós não somos “como elas”!)
News flash: você é exatamente como elas. Você é mulher. E só isso já dá automaticamente passe livre para alguém cometer violências contra você. Precisamos mudar o discurso. Imediatamente.
UPDATE: Se você ainda não se convenceu a respeito da forma como se trata a vítima de uma agressão misógina, veja a capa do The Sun abaixo. Inacreditável. Ah, caso você leia em inglês, não deixe esse texto aqui passar.


