Você não é prato do dia

Durante o feriado rolou mais uma propaganda bizarra da Axe. Nós já sabemos que eles coisificam as mulheres, como se fossemos objetos, mesmo. Nem estou falando de “objeto sexual”, não, mas sim de uma coisa, um enfeite, um peso de porta.

Além de sermos colecionáveis, agora também estamos num cardápio. A “gracinha” no Facebook era a seguinte (infelizmente não salvei e já saiu do ar): “homem não tem agenda de telefone, tem cardápio”.

Feio demais uma empresa se posicionar dessa maneira. É aquilo que já conversamos: essas peças publicitárias passam por um montão de gente até chegar ao público. Ninguém percebe como são equivocadas?

No entanto, é preciso dizer: apesar de ser tosquíssima, a peça representa, sim, o pensamento de parte da população. Muitas das leitoras do blog chegaram aqui por meio de um texto difamatório postado em um outro blog em que o autor SEMPRE chamava as mulheres de “lanchinho”.

Pra ele, a agenda telefônica é, sim, um cardápio.

Muita gente vê o parceiro de sexo casual como uma coisa. Quem leu meu livro viu como eu trato meus moços. Mesmo que seja apenas sexo (e isso já é muita coisa), eles não se transformam em pintos voadores. Não há nada de errado em não pretender namorar com quem você está transando, desde que as intenções estejam muito claras.

Quantas vezes eu fiz sexo só pelo “eu não estou fazendo nada, você também”? Zilhões. Nem por isso eu tratei os caras com descaso, sem me preocupar com o prazer deles. Como diria Gaiarsa (sempre ele, esse lindo): “não esqueça que se trata de uma relação. Que você não está sozinho, que ela [a parceira] está até que bem próxima”.

No entanto, não posso deixar de admitir, com um certo pesar, que provavelmente fui tratada com um “lanchinho”. Que fui coisificada. Tratada como um buraco. Ou como uma bomba de sucção.

Porque antigamente eu pensava “homem é assim mesmo”. Não é o que dizem por aí? Também tinha problemas de autoestima e imaginava que o máximo que iria “conseguir” era aquilo. Que eu não merecia mais. Se eu quisesse, era aquilo. E que me desse por satisfeita!

Os anos foram passando, eu fui crescendo e amadurecendo. Percebi que, mesmo que eu não seja a Gisele Bündchen ou não tenha sido premiada com o Nobel de Literatura, ainda assim eu mereço ser tratada com respeito. Porque eu sou gente, não uma boneca inflável.

Faço sexo casual, adoro e pretendo continuar fazendo. O que mudou foi a qualidade das pessoas com quem me envolvo. Evidentemente às vezes não dá para perceber de cara que ele vai me tratar mal. Se eu tivesse uma bola de cristal…

Mas eu aprendi a dizer “basta” e a interromper certas relações se elas forem de alguma forma prejudiciais à minha sanidade física ou mental. Isso inclui, é claro, ser tratada como uma coisa.

Portanto, reclamemos, sim, de peças publicitárias patéticas e machistas como as da Axe. Mas precisamos nos posicionar também no cotidiano, seja nas relações da “vida real”, seja em como nos comportamos na internet. Como algumas de vocês leram aquele blog da “mulher lanchinho” durante tanto tempo? É porque era com a “outra”? Vale dar uma relida no post de ontem para perceber que a outra também é você. Seguir gente machistinha no Twitter, compartilhar texto de site/blog desrespeitoso, curtir página que faz piada com minoria: tudo isso é corroborar com o comportamento misógino e preconceituoso de quem trata outras pessoas como inferiores.

Nossa publicidade tem que mudar, sim, mas a mudança deve ser muito mais profunda que isso. É uma mudança estrutural, difícil, pesada. Mas ela tem que ser feita. Comece por você.

***

Eu não estou mais vendendo livros aqui no blog. No entanto, como muita gente estava esperando o cartão liberar/a grana entrar, resolvi dar uma última chance aos retardatários. :)

Se você quer comprar o livro com dedicatória, peço que preencha o formulário abaixo. De acordo com o número de pedidos, talvez eu faça uma nova encomenda à editora. Por favor só preencham se realmente tiverem interesse. 

Houve quem emitiu o boleto e não efetuou o pagamento, e isso me deixou no preju. Lembro que o livro está à venda em livrarias físicas e online (o link está aqui).

ATENÇÃO: Isso é uma mera possibilidade, que dependerá do interesse das pessoas. E o envio provavelmente demorará um pouco. Obrigada.

https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dFdXRGpzRmVtdXNHYVZsM2FoUWtUaGc6MQ

A cultura do estupro

Quando se fala em “cultura do estupro” muita gente torce o nariz. Dizem que isso é conversa de feminazi, que ninguém apoia tal crime, que as coisas não são tão graves como pintamos.

Bem que eu gostaria que tudo isso fosse coisa das nossas cabeças. Sobre não apoiar o estupro, vocês têm certeza que não o fazem? Quantas vezes você já falou/leu/ouviu um “vai virar mulherzinha na cadeia”, achando que é razoável um criminoso – não importa o potencial ofensivo do crime cometido – ser punido com estupro?

Culpar a vítima é também uma forma de diminuir a gravidade da lesão. “Quem mandou ela estar ali”, “não devia ter enchido a cara”, “ela provocou”, “eu conheço o cara, ele não faria isso”.

Infelizmente tais comentários não ocorrem só aqui no Brasil. Com as eleições americanas, alguns candidatos falaram absurdos a respeito do tema. Sei que tem gente achando que isso não nos diz respeito; pra mim, no entanto, a agressão a qualquer ser humano em qualquer lugar do mundo é da minha conta, sim. Evidente que não dá para acolher/resolver tudo, mas discutir a respeito é preciso para entendermos como as coisas funcionam. O patriarcado não se limita às fronteiras de um país.

Entre as bobagens ditas lá no hemisfério norte rolou, por exemplo, a sugestão de que se a mulher quiser, o corpo dela “shuts down”, isto é, ela não engravidaria de um estuprador. Só com a força do pensamento, entendem? Felizmente o senhor que disse tamanha asneira foi derrotado nas urnas.

Com o assunto em pauta, a Soraya Chemaly, colunista do Huffington Post, fez uma lista com 50 fatos sobre estupro. Em todos há link para reportagens e estatísticas. É impressionante. (aliás, se você lê em inglês, vale muito a pena acompanhá-la. recentemente traduzi um texto dela sobre feminismo.)

A lista é bastante grande e muitas coisas têm muito a ver com a realidade americana. Então escolhi alguns dos pontos para traduzir. Cá estão:

1. Estimativa por baixo do número de mulheres estupradas por ano, de acordo com o Departamento de Justiça (lá nos EUA): 300 mil.

2. Estimativa mais alta do número de mulheres estupradas por ano, de acordo com o CDC (Centro de Prevenção de Doenças): 1 milhão e 300 mil.

3. Porcentagem de estupros não denunciados: 54%.

4. Chances de uma mulher ser estuprada nos EUA: 1 a cada 5.

5. Número de mulheres que anualmente engravidam do estuprador: 32 mil.

6. Número de estados em que o estuprador pode brigar na justiça pela guarda da criança e por direitos de visitação: 31 (inacreditável. ainda bem que isso não rola aqui.)

7. Chances do corpo da mulher “shuts down”: 0 em 3.2 bilhões.

8. Porcentagem de mulheres que sofreram algum tipo de abuso sexual no Alaska: 37% (isso dá 1 em cada 3 mulheres!!!)

9. O New York Times sobre um caso de estupro: “Disseram que ela estava vestida como uma mulher mais velha”. (quer dizer, culpando a vítima… e a roupa dela.)

10. Idade de mulher estuprada no Central Park em setembro de 2012: 73.

11. Porcentagem de vítimas de abuso sexual menores de 12 anos: 15%.

12. Porcentagem de homens estuprados: 3%.

13. Porcentagem de estupradores que não foram presos: 97%.

14. Porcentagem de estupros que os estudantes universitários acham que são falsos: 50%.

15. Porcentagem de falsa comunicação de crime de estupro, segundo pesquisa: 2 a 8%.

16. Número de mulheres estupradas no conflito na Bósnia na década de 90: mais de 60 mil.

17. Número de mulheres estupradas POR HORA no Congo durante a guerra: 48.

18. País em que a mulher estuprada é presa por causa do estupro (sim, você leu direito): Afeganistão.

19. Idade da garota marroquina que se suicidou por ser obrigada a casar com seu estuprador: 16.

20. Número de “noivas crianças” (menores de 18 anos) que são obrigadas a se casar no mundo, por dia: 25 mil.

21. Idades das garotas obrigadas a casar com um cara de 59 anos num culto lá nos EUA: 8, 14 e 15.

22. Estado em que um médico está sendo processado por fazer aborto em uma garota de 10 anos vítima de incesto: Kansas.

23. País em que os médicos (e não o estuprador) foram excomungados por fazerem um aborto necessário (a garota corria risco de vida) numa garota de nove anos vítima de incesto: Brasil.

24. País em que um candidato queria criminalizar todos os tipos de aborto, inclusive os de gravidez decorrente de estupro, porque estupro é “só mais um método de concepção”:  EUA.

Depois da lista com 50 itens, a autora faz alguns comentários. Traduzi uma parte que achei interessante:

“Estupros acontecem em todos os lugares. A aceitação, tolerância, negação e ignorância sobre o estupro no mundo todo são usadas, no melhor dos casos, para restringir os direitos reprodutivos das mulheres, impedindo a igualdade da mulher. Nos piores, o estupro é usado estrategicamente e com violência como arma de guerra e ferramenta de opressão ativa. Deixar a realidade sobre estupro nas sombras com certeza foi um grande desserviço e fez com que os estupradores e seus defensores tenham se safado. Então, mesmo que não seja legal de digerir essas informações sobre estupro, isso é necessário.”

Ela então cita uma frase da Jessica Valenti em outro post que eu gostaria de traduzir, mas ainda não tive tempo: “Todos os dias, a seriedade, a violência e o potencial criminoso do estupro são distorcidos de um jeito que fica mais difícil para as vítimas denunciarem, bem como para os militantes contra a violência trabalharem. Ao mesmo tempo, o mundo vira um lugar melhor para quem culpa a vítima e para os próprios estupradores”.

Sei que é um assunto indigesto e que muita gente finge não acontecer. Estupro não é sexo; estupro é violência, é disputa de poder. Acontece em todo lugar, com todas nós, o tempo todo. Precisamos apoiar quem sofreu abusos e punir quem os cometeu.

Também é necessário repetirmos, quantas vezes forem necessárias, que o parceiro não é dono do corpo da mulher – não existem as tais “obrigações maritais” que tanto se fala. Sexo nunca pode ser obrigação. Sexo é prazer, é consensual, é para todos os envolvidos. Qualquer coisa fora disso é violência.

Da ignorância

A confusão no Twitter ontem começou por causa de uma postagem feita por um rapaz famoso.

Ele disse: Chocolate nesse calor é igual bêbada de metabolismo rápido. Se não comer na hora, babou.

Eu não sigo o sujeito e vi porque alguém mencionou. Achei surreal. Retuitei e coloquei um “inacreditável” na frente. Bom, é perfeitamente “acreditável”, tendo em vista que este moço sempre faz comentários machistas.

Ainda assim eu sempre me espanto porque penso que há chance de mudança. Há espaço para que as pessoas pensem que piada com mulher bêbada + sexo = estupro, mas parece que não tem jeito.

Como sempre o caos se instalou no Twitter (eu me divirto, confesso). Ele respondeu: @vidadeleticia não gostou da piada da mulher bêbada. Mando reclamar com o Daniel?. Não sei de que Daniel ele estava falando, mas imagino que seja do ex-BBB. Isto é, era uma PIADA DE ESTUPRO MESMO.

O mais impressionante nessa história é que algumas pessoas saíram em defesa do moço. E é justamente aqui que quero chegar (tudo isso aí em cima foi só para vocês entenderem do que eu estava falando).

A gente prefere acreditar que nossos amigos, irmãos, companheiros de trabalho – e nós mesmos – não somos machistas. Daí dizem “não, fulano não é machista, você é quem está exagerando!”. Será?

Então, por qual razão as pessoas ficam indignadas quando uma propaganda de vodka faz exatamente a mesma associação de mulher bêbada = sexo não necessariamente consensual?

Simples: porque é errado, sim. Só que quando é com alguém que a gente conhece fica difícil reconhecer o machismo e quão babaca o amigo é. Porque ter amigos babacas nos faz um pouco babacas, também. Como você pode seguir no Twitter alguém que fala tanta merda? Não sei, mas sei que essas pessoas têm muitos seguidores.

As coisas foram crescendo e um monte de gente se meteu no meio. Começou aquela velha história de “feminista é tudo mal amada/mal comida/briga por tudo”. Primeiro que eu não falo em nome de um movimento – movimento este que, aliás, está longe de ser uno. Eu falo em meu nome. E acho esse tipo de “piada” sofrível, machista e idiota. Sempre falarei contra esse tipo de coisa.

Porém, ficou claro uma coisa difícil de acreditar em tempos de internet. As pessoas não sabem o que é feminismo. Elas não procuram saber; preferem repetir os clichês ditos por aí por… machistas!

Um dos moços envolvidos na confusão de ontem soltou um:

Pergunta séria: se machismo é ruim, pq o feminismo deveria ser bom? Não deveria existir outro termo?

Feminismo não é o contrário de machismo. Enquanto o último prega a superioridade masculina, o primeiro busca a igualdade. As pessoas pegam um sufixo – no caso, “ismo” – e acham que sempre significa a mesma coisa.

Ele continuou mostrando a ignorância:

A palavra no masculino ta associada a algo ruim, a versao feminina a algo bom? Meio errado isso.

Meio errado é ser machista e ignorante…

É como dizer que criminoso é feio e criminosa é bonito.

Risos. E a pessoa não tem nem vergonha de falar isso pra milhares de seguidores. “Barato é o marido da barata” feelings.

Uma moça que não conheço se meteu no meio da confusão e começou a me xingar por causa do cem homenszzzzzzzzzzzzzz. Ela, que se autointitula “doutora” (e, pelo que sei, não tem curso em nenhuma área que lhe dê esse título) disse “buceta não é prêmio, sexo não é disputa e sexicismo é BURRICE”.

A pessoa se dispõe a escrever sobre relacionamentos e não sabe nem que o correto é “sexismo”, e não “sexicismo”. Bem se vê que não há qualquer preparo para falar sobre o assunto.

Então, o que vejo em discussões como a de ontem é que grande parte das pessoas não têm a menor ideia do que é machismo e feminismo. Por isso repetem preconceitos – a ignorância é um dos grandes motores históricos do preconceito.

É preciso se informar. Entender que machismo não é antônimo de feminismo. E que mesmo uma feminista pentelha como eu pode ser apenas uma pentelha. Chata. Rabugenta. Inconveniente. Um machista é tudo isso, mas em situações extremas (e infelizmente muito comuns) ele mata. Qual dos dois é pior?

Hoje não é dia de flor

Não é porque rosas não são as minhas favoritas. Não é porque eu sequer tenho um vaso para colocar uma flor só. Não é porque acho brega uma flor só.

Durante grande parte da minha vida eu achei bacana o gesto de receber uma rosa em 8 de março. Que mal havia nisso? O que uma simples flor poderia representar? Era só gentileza, pensava. Sequer considerava questionar o que havia por trás daquilo.

Essa atitude é super comum. Pipocam nas redes sociais e na vida real elogios vazios sobre a beleza feminina. Ou como somos emotivas. Ou como a maternidade é algo sublime. Blogs fazem posts enormes com fotos de flores, de mulheres sorrindo. Exaltam a feminilidade, segundo um pensamento muito torto.

Torto?, perguntariam alguns. Sim, torto. Difícil reconhecer isso. Eu mesma demorei muito tempo – três décadas, pra ser mais exata – para entender que não há características naturalmente femininas.

Também entendia que a luta do feminismo era algo ultrapassado, exceto em algumas culturas em que ainda se cortam clitóris ou em que a mulher não pode votar. Eu, moradora de uma cidade grande e que ganhava o mesmo que meus colegas de trabalho homens, achava que não havia mais o que se combater. Via como absurda a ideia de que nós éramos responsáveis por lavar a louça ou coisas “pequenas” assim; só que eu entendia isso como algo isolado, e não como o padrão de comportamento de toda a sociedade. Eu, mesmo como advogada, ainda acreditava na hipótese de “crime passional”.

Esqueci de todas as vezes em que tive vergonha de tomar sorvete em público. Tomava, mas evitava a troca de olhares com qualquer transeunte.

Esqueci de todas as vezes em que tive medo de andar um quarteirão sozinha, mesmo sem estar com dinheiro ou outro objeto de valor. Andava, mas apressava o passo ao notar algum homem chegando perto de mim.

Esqueci de todas as vezes em que tive a sensação de estar sendo “sarrada” em transporte público só porque – eu então achava – estava de saia curta ou com uma blusa decotada. A culpa era minha, afinal.

Esqueci de todas as vezes em que minha mãe foi xingada de puta porque em plena década de 1980 se separou e namorou um homem muito mais novo que o meu pai.

Esqueci de todas as vezes em que eu mesma fui xingada de puta (ainda que sem palavras ditas em voz alta) por ter feito sexo oral no primeiro encontro.

Esqueci. Só que aí relembrei.

E procurei saber mais. Li, estudei, conversei. Escrevi esse blog. Vi situações que não acontecem só lá do outro lado do mundo; que aqui, agora, nós continuamos sendo oprimidas o tempo todo, por todo mundo, até por nós mesmas.

Porque o feminismo não é uma luta só das mulheres, assim como o machismo não se aplica apenas aos homens. Acho mais difícil de entender uma mulher machista – ela sofre na pele (porque todas sofremos, não se engane) o preconceito e todas essas coisas pequenas do cotidiano que citei acima. Como não parar para pensar a respeito e se rebelar contra o sistema?

Não digo que você precisa sair às ruas e “queimar sutiãs”. Mas reconheça a luta histórica do feminismo, nem que seja no dia em que relembramos os fatos. Mude a forma como educa seus filhos: pare de dar para sua filha brinquedos que imitam tarefas domésticas, por exemplo (meu amigo Leandro Godinho me disse que lá em Porto Alegre a pauta do jornal local do meio-dia hoje foi “garota verão” e “dicas de beleza”). Pare de julgar como puta a mulher que está com roupa curta e que beijou mais pessoas no último mês do que você o fez na vida. Chame o garçom e divida a conta do restaurante, mesmo que seu acompanhante seja homem. Mude. Aos poucos. No seu ritmo. Mas mude.

Hoje não é dia de celebrar a “feminilidade”, conceito bem difícil de entender ou precisar. Aliás, não vejo nem utilidade nos papéis de gênero.

Hoje é dia de celebrar as conquistas do feminismo e de repensar quão difícil é ser mulher. Prova disso é a “homenagem” da Band Santa Catarina que copiei nesse post. Não se cale. Fale mais alto. Seja mulher, seja homem. Só não seja machista.

Links interessantes sobre o 8 de março:

Um levantamento histórico bacana e bem resumido da Maira Kubik

Espero que isso seja brinks

Troque sua rosa por um mundo com mais igualdade

Hoje é dia de repensar o seu machismo – reflexivo sem ser pedante. Escrito por um homem

A luta é de todos nós – com vários dados sobre a violência contra as mulheres e manifestações pela data

Pau que nasce torto… se endireita, sim

Cresci em um ambiente machista, conservador e falso moralista. As pessoas que eu conhecia eram dessas que fazem piadinha homofóbica. Quando criança, as mulheres separadas eram vistas como grandes safadas. Durante anos as respostas a algumas das minhas perguntas eram simplesmente “porque ele é homem”.

Com isso, justificava-se, por exemplo, o fato do meu primeiro namorado sair com outras garotas. Eu, quatro anos mais nova que ele – e virgem -, tinha de entender a “necessidade” que ele tinha de “se aliviar”. Eu olhava para algumas daquelas coisas e achava meio absurdas, mas acabava aceitando. Era o mundo em que eu estava inserida, afinal de contas.

Os anos passaram, eu mudei para outra cidade muito maior, alguns amigos assumiram a homossexualidade, comecei a frequentar ambientes meio-rock-meio-gls. Fui mudando, abrindo minha cabeça, repensando valores. Sexualmente sempre fui muito livre. Sabia que algumas pessoas me achavam “uma putinha” e “não me davam valor” porque transei antes de um tempo considerado moralmente correto. E achava tudo muito tosco.

Ao mesmo tempo, porém, eu repetia muitos, muitos comportamentos machistas. Quando a coisa era muito óbvia, eu até conseguia me rebelar. Lembro de uma vez em que um homem da minha família disse que eu devia recolher e lavar a roupa suja “porque eu sou mulher”. De fato recolhi porque estava me incomodando, mas joguei tudo dentro do tanque; quando ele ficou sem roupa limpa, deu o jeito dele.

Mas eu era machista. Dizia “mulher no volante, perigo constante”, por exemplo. Em uma ocasião, em Buenos Aires, quis comprar uma camisa do River Plate. “Você precisa ser mais feminina”, disseram. Eu acreditei que me vestir com o uniforme de um time de futebol me deixaria menos mulher. Me contentei em comprar um ímã de geladeira. Tenho até hoje. Ele diz “River, te voy a alentar hasta que DIOS me diga basta!”.

E assim segui por anos e anos e anos e anos. Contestando aqui e acolá, mas ainda carregando um ranço machista bizarro. Até que eu comecei a escrever neste blog e vi como muitos de nós têm uma vida sexual medíocre por causa exatamente do machismo. Homens e mulheres – o machismo é ruim para todos nós.

A partir da observação de como isso influencia na hora em que estamos nus em uma cama, passei a ser mais crítica com outras situações. Claro que eu já achava absurda, por exemplo, a diferença salarial entre os gêneros. Mas, como eu disse antes, eu não passava do óbvio.

Sinto vergonha de assumir, mas eu já esbravejei “eu não queimei sutiã” por aí, ao me posicionar contrariamente à jornada dupla-tripla de muitas mulheres. Não conseguia perceber que o que estava errado era a mulher continuar sendo “dona de casa”, e não o fato de ela ir trabalhar fora. Realmente não temos de acumular funções, porque arrumar a casa e trocar fralda não é a nossa função. Eu, Letícia Fernández, até bem pouco tempo atrás dizia que existiam coisas-de-homem-e-coisas-de-mulher. Homem chorão, por exemplo, era motivo de piada para mim.

Ao contrário do que muita gente pensa, não é preciso ler mil livros teóricos para se tornar uma feminista. Eu ainda vou fazer isso, especialmente quando se fala sobre sexualidade também. Entender o contexto histórico e da formação da nossa sociedade é bacana para entender como as coisas chegaram até aqui.

Mas hoje, com a internet, é possível compreender o feminismo por blogs, artigos que circulam na internet, até mesmo pelo Twitter. Tem muita gente repetindo conceitos arcaicos e opressores por aí (e tristemente são pessoas com muitos seguidores e milhares de acessos no blog), e aí entra a sua percepção para conseguir separar bem as coisas.

Eu levei 31 anos para me descobrir feminista, ainda que o feminismo sempre tenha feito parte da minha vida, assim como o machismo. Tive certeza disso durante uma palestra sobre violência doméstica ano passado. Eu estava cobrindo o evento como jornalista. Estava entediada de estar ali, era de manhã e eu não funciono direito antes do meio dia. Até que eu simplesmente chorei ao ouvir os números. Números frios, meras estatísticas. Em um dos itens da pesquisa havia os motivos pelos quais uma mulher agredida não deixa o lar. Medo de ser morta era um deles. Em terceiro lugar estava “falta de autoestima”. A socióloga presente fez o seguinte comentário: “Também, no Brasil a mulher é criada para não desenvolver autoestima mesmo”.

Tudo fez sentido pra mim naquele momento. Aquilo coroou uma mudança gradual e lenta que eu estava vivenciando. Hoje sou outra pessoa. Que tal começar a mudar também?

Peço desculpas pela música MUITO ruim dali do início do post. Eu acordei com essa merda na cabeça, tanto é que virou o próprio título deste texto. Então deixo vocês com uma música realmente boa:

Olhe para o próprio rabo

O post abaixo gerou uma pequena discussão no Twitter.

Eu estava comentando sobre essa coisa do “valor” de quem transa – ou não – no primeiro encontro.

Recebi um reply em que o rapaz dizia “Gosto do mistério. Gosto de valorizar minha conquista. É…acho que sou meio diferente…”.

Quantos erros em um só twitt, não? 140 caracteres onde você pode destilar tanto preconceito. Primeiro que essa coisa de “mistério” é pura balela. Ninguém mostra tudo de si nem em 50 anos de relacionamento, imagine naquele momento em que tudo ainda é descoberta.

Segundo: valorizar a conquista? Sério? Como o @augustoyoh bem pontuou, fica parecendo “que o cara acabou de caçar um javali”. A mulher não está numa posição passiva. Ou, pelo menos, deveria estar. Então, você não CONQUISTOU uma mulher, como se ela não tivesse poder de decisão sobre a coisa – e você, com seu charme e elegância, conseguiu fazer ela mudar de ideia.

Terceiro: “acho que sou meio diferente”. Hã? É exatamente isso que grande parte das pessoas faz. Não há nada de diferente, novo, revolucionário no comportamento do rapaz em questão.

Depois de eu falar isso tudo por lá (desculpe se você me segue e viu tudo isso, mas tem gente que não usa Twitter e/ou não estava online), o rapaz disse: “Julgando uma pessoa por uma frase escrita? Talvez vcs tenham entendido a valorização da conquista de uma forma equivocada….”.

De fato, eu posso ter julgado de forma equivocada. O que eu acho, porém, é que, quando ele viu os argumentos das outras pessoas, ele percebeu quão ridículo/conservador/machistinha estava sendo.

Perturba reconhecer em nós mesmos comportamentos que a gente não gosta de ver nos outros. Mas se tocar disso é um grande passo e um empurrão para começarmos a mudar.

Esta luta também é sua

Eu não ia falar sobre o comercial da Hope. Tinha lido diversos textos brilhantes acerca do caso (cujos links você encontrará ao longo e ao final deste post) e, sabendo que não chegaria nem aos pés de certos argumentos de quem conhece muito mais sobre feminismo, achei melhor ficar quieta.

Mas aí li este texto no Papo de Homem. O título já dá uma ideia do que vem depois: “Comercial de lingerie comprova: feministas são chatas pra caralho”. É um desfile de clichês, vistos em qualquer discussão sobre o papel do feminismo. Com veemência, Rodolfo Viana diz “as feministas veem agressão em tudo!”. Rodolfo comete, só no primeiro parágrafo, dois grandes erros. Ele diz que as feministas lutam pelas causas erradas e fala como se elas, as tais feministas, fossem um núcleo separado do resto da sociedade, como se fosse possível juntar todo mundo num grupo só e apontar. “Olha, lá vão as feministas.”

E, partindo da ideia ridícula que grande parte das pessoas têm, seria muito fácil identificar-nos. Bastaria procurar uma mulher de bigode, axila peluda e gorda. Muitos dos comentários – ali e em qualquer lugar em que se traga o sexismo à tona – corroboram a visão do autor. Somos todas chatas, mal comidas e invejosas. E lutamos pelas causas erradas.

Você tem certeza disso?

Rodolfo obviamente não conhece as lutas feministas. Menospreza o movimento que, ora vejam só, não é necessariamente organizado e certamente não é homogêneo. Na discussão dos comentários, alguém disse “porra, com tantas vertentes, fica difícil dar um passo sem pisar no calo de alguma feminista”. Mais um ponto para a ignorância.

Se você acha que essa discussão não tem nada a ver com você, eu pergunto novamente: tem certeza disso?

Feministas não somos apenas nós, mulheres. Assim como há muitas (muitas e muitas e muitas) mulheres machistas, há – felizmente – muitos homens feministas.

Não é preciso, também, estudar a história do feminismo para defendê-lo. Tampouco ler os blogs feministas, ainda que as duas coisas sirvam para dar um maior embasamento teórico em algumas discussões. Mas já há muita gente boa e bacana produzindo conteúdo irrepreensível a respeito do assunto.

Ler sobre a causa pode nos fazer repensar alguns conceitos e identificar quais nossos comportamentos machistas. Às vezes a gente nem percebe. Eu, por exemplo, costumava dizer que “mulher no volante é perigo constante”. Fomos criados em uma sociedade patriarcal; só nos livraremos dessas ideias tão arraigadas lendo, conversando, observando. Se ficarmos parados, é grande a possibilidade de continuarmos repetindo os mesmos padrões ensinados há décadas.

Chegamos a duas conclusões: não é preciso ser mulher e nem ter embasamento teórico para ser feminista. Então, como saber se sou uma?

É bem simples. Faça uma autocrítica. Veja as frases que você diz por aí. Você realmente acredita que há “coisas de mulher” e “coisas de homem”? Você acha razoável uma mulher ganhar menos que um homem, mesmo exercendo igual função? Você acha que uma mulher de saia curta está assumindo o risco de ser estuprada?

Dependendo das respostas às perguntas acima, acho que você consegue identificar de que lado você está. Não acredito na existência do bem e do mal, do certo e do errado. Você pode ser um pouquinho machista, sim. Como disse antes, todo mundo é (ou já foi). Perceber isso e continuar agindo da mesma maneira é que te deixa – aí sim – do lado errado da coisa toda.

Se você, homem, não acredita que o machismo te atinja, peço que veja o vídeo abaixo. É em espanhol, mas acho que dá para entender a ideia central do comercial:

Alguns defendem que o problema são as “feministas radicais” (desculpe-me, mas o problemas não são elas. elas nem existiriam se não fosse o machismo). Chegaram até a cunhar um apelido para elas: feminazi. Isso diz tanto sobre quem repete o apelido… comparar feminismo (que defende direitos iguais entre homens e mulheres) a nazistas é demonstrar quão estúpido você está sendo, só com uma tentativa babaca de reafirmar seu machismo e, de lambuja, ser “engraçadinho”.

Alex Castro fez um texto ano passado sobre a falta de consciência que algumas pessoas têm sobre serem ou não machistas. Peço licença ao dono do Oliver para reproduzir aqui um trechinho exatamente sobre o que eu disse acima:

Feminismo é a busca por direitos iguais para as mulheres.

Machismo é a dominação do homem sobre a mulher.

Os dois termos não são, nunca serão, não podem ser análogos. É uma falsa simetria. É como reclamar de não haver um Dia da Consciência Branca.

Portanto, falar que “as feministas são tão ruins quanto os machistas” só expõe, mais uma vez, o seu próprio machismo.

A feminista mais radical não tem como ser pior do que o machista mais brando. Por definição, é impossível.

Como disse Alex, calma, tem cura. Mas antes você precisa ver que sim, você pode ser machista. Se você acredita que a propaganda da Hope não tem nada de errado, você é machista, sim.

Não vou me alongar (mais) sobre a tal propaganda. Coloco no fim do post vários links de textos a respeito, muito bem escritos, gostosos de ler, esclarecedores.

O que me estarreceu nisso tudo – e é o motivo deste post – é a dificuldade em enxergarmos quão machistas somos. É feio assumir isso, né? É melhor desconstruir o feminismo, dizendo que somos feias e mal comidas, ou que não temos pelo quê lutar. Pega mal dizer que lugar de mulher é na cozinha, mas na primeira oportunidade você deixa sua mãe/irmã/namorada cozinhando e lavando a louça. Você  diz pra todo mundo que acha um absurdo quando uma conhecida apanha do namorado/marido, mas quando é uma desconhecida você diz “alguma ela aprontou”.

Isso é machismo. Observe. Repense. Ainda dá tempo de mudar.

UPDATE: Paulo Moreira Leite escreveu um belíssimo artigo sobre feminismo, liberdade de expressão e propaganda. Sejamos menos ingênuos, minha gente. “Liberdade de expressão” não serve para tudo. Recomendo a leitura.

O machismo nosso de cada dia

Calcinha é bom mas respeito também

Não é só propaganda

O sexismo benevolente

Hildegard Angel e as mulheres feias: Iriny x Gisele

Marjorie Rodrigues e uma análise bem mercadológica da coisa toda 

Você riu da propaganda? Blogueiro mostra como a história aconteceria na vida real 

 Vergonha de quem se recusa a pensar

A buda acefálica (sic) responde

Eu não ia responder. Tinha certeza disso até a manhã de hoje. Não só porque o texto é ridículo, mal escrito e agressivo, mas porque eu estava lidando com problemas muito maiores (acreditem: quando você fica nas notícias mais lidas de um dos maiores portais da internet brasileira, um blogueiro – por mais conhecido que seja – não faz nem cócegas). Em segundo lugar, eu sei que nada vai mudar a cabeça do rapaz em questão. Não adianta argumentarem. Até pedi para as leitoras não irem lá bater boca. Além disso, como esperar um mínimo de noção de um sujeito que cobra para responder emails de leitoras? Sim, é isso  mesmo que você leu: o queridinho cobrava R$ 53,90, via Pag Seguro, para dar conselhos sobre a vida amorosa das leitoras. Lembro que o ser em questão não tem nenhuma educação formal em áreas como psicologia ou sexualidade. Então, pagava-se por um mero achismo. Parabéns a você que pagou, além de R$ 53,90, um mico federal.

Porém, um grande número de acessos ao meu blog nestas últimas duas semanas vem de lá (obrigada, querido). Como surgiram muitos questionamentos nos comentários (li todos, achei muita graça da maioria, que até serviram para atualizar o Tumblr), resolvi, nesta calma e deliciosa segunda-feira, responder alguns deles.

É evidente que não vou explicar a história dos cem homens. Quem aguenta isso ainda? Essa história ficou velha e já perdi tempo demais explicando, muitas vezes inutilmente.

Tampouco trarei à tona a questão da liberdade de expressão/grosseria/injúria – calúnia – difamação. Sugiro a todos apenas um ano nos bancos de uma faculdade de direito. Nem precisa ser bacharel ou passar na OAB. Basta ter um pouco de bom senso, ler alguns constitucionalistas/criminalistas, conhecer o mínimo de responsabilidade civil… e voilá! Você vai parar de falar merda na internet, achando que isto aqui é terra de ninguém.

Afinal, sobre o quê eu vou falar?

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Vai escolher o quê?

Esqueçam o fato de eu ser uma mulher-que-tem-um-blog-chamado-cem-homens. Ao lerem este post, pensem em si mesmas; pensem nas suas irmãs, primas, amigas. E agora leiam o comentário do Lucas no Encantamento (update em 20/01/13: o post não está no ar, está no livro):

O cara tb agradece, conseguiu dar uma aliviada de graça, e tem certeza de que não vai ter dor de cabeça depois.

Todos saem ganhando.Eu acho muito bom que existam pessoas de todos os tipos, principalmente para nós homens.Imagina se tivéssemos que namorar sempre que quiséssemos “dar uminha”, ou se tivéssemos que ser obrigados a casar ou namorar com uma mulher que libera geral.

Sorte que temos escolha e podemos optar por cada tipo de mulher de acordo com nosso interesse e intenção naquele momento.

Viva a liberdade e a diversidade!

Ficou com nojo? Eu também. E respondi:

É, Lucas, ele não está tendo NENHUMA dor de cabeça.

Ele só queria comer? Pois eu dei. Dei GOSTOSO.E enquanto eu vou beijar mais na boca hoje, você vai bater uma punhetinha. Oh, mundo cruel!

Aí o Lucas deu o recado:

Oh loco!

Pensei que meu comentário fosse ser bem recebido, por exaltar o respeito à diversidade.Parece que errei. A Letícia tem o direito de dar para cem, eu não tenho o direito de escolher o tipo de mulher que eu quero para ter um relacionamento sério, e a que eu quero para sexo casual. Não seria uma imposição social às avessas, tal qual a que vc mesma critica, Letícia?Bem, como estou namorando, muito difícil passar uma sexta-feira na seca, não sei de onde tirou essa suposição, nem qual a importância disso ou sua relação com meu comentário.De qualquer forma, não foi minha intenção ofender nem polemizar.Beijo!

Eu sei que está um saco essa troca de comentários, mas prometo que já acaba. Eu revidei com o seguinte:

Lucas, vai dar uma de bonzinho? Pelamordedeus, né? 

“Respeito à diversidade”? Com esse preconceito? Faça-me o favor. ps: só fica de olho se a sua namorada um dia não vai (ou já não o fez) me mandar email dizendo que o namorado dela é assim ou assado. É o que mais rola. Dica.

A última pérola do Lucas foi esta:

Letícia,

Não sei se esse é o local adequado, nem se vc tem interesse em discutir isso, mas o que vc chama de preconceito, é simplesmente o meu direito de optar por qual tipo de pessoa quero na minha vida para uma aventura sexual furtiva, e qual eu quero para um envolvimento amoroso e compromissado.Vc critica tanto a hipocrisia e a contradição das pessoas que te condenam, mas está tendo comportamento semelhante quando diz não aceitar meu posicionamento, inclusive tentando me desqualificar, gratuitamente, algo que até onde alcanço, não fiz com vc. Muito pelo contrário, tentei ser o mais respeitoso possível.Igualmente ao seu caso, meu posicionamento não prejudica ninguém, é simplemente uma opção pessoal, de poder escolher quem eu quero na minha vida e para qual propósito.Outro beijo, admiro sua coragem e acho que vc escreve muito bem, parece ser muito inteligente!

Entre esses comentários, várias leitoras e alguns leitores defenderam o Lucas. Disseram que quem discordou dele (como eu), “pegou pesado demais”. Uma leitora disse “ah, é assim mesmo que os homens pensam”.

Peraí. Sério mesmo? Sério mesmo que vocês acham que mundo deve continuar do jeito que está só “porque é assim que as coisas são”? Ninguém vai mudar a vida um pouquinho para que vivamos em uma sociedade mais justa e igualitária – e isso inclui a igualdade entre homens e mulheres? Eu não estou nem falando pra ir à luta, fazer revoluções, nada disso. Simplesmente não aceitar o que um machista desse falou pode se tornar um grande passo para a igualdade.

Como alguém mencionou nos comentários, o Lucas é o pior tipo de machista. Porque quando uma pessoa não tem jeito com as palavras e já sai xingando, a gente o desqualifica logo de cara. Mas quando alguém estudou e consegue expressar as tacanhas ideias de forma inteligível, há quem não pense duas vezes no que ele disse. É como se a educação formal de Lucas validasse suas opiniões, por mais idiotas que elas sejam.

Não conseguem enxergar o machismo e falso moralismo por trás das palavras dele? Eu desenho:

conseguiu dar uma aliviada de graça“aliviada” é o que você dá quando se masturba. “de graça” é o contrário de “teve de pagar”. “teve de pagar” = prostituta.

Eu acho muito bom que existam pessoas de todos os tipos, principalmente para nós homens. - “principalmente para nós homens” – se depois dessa oração você ainda não notou o machismo deste garoto…

Imagina se tivéssemos que namorar sempre que quiséssemos “dar uminha”, ou se tivéssemos que ser obrigados a casar ou namorar com uma mulher que libera geral. – Lucas rotula as mulheres. Volto a isso mais no final do post.

o que vc chama de preconceito, é simplesmente o meu direito de optar por qual tipo de pessoa quero na minha vida para uma aventura sexual furtiva, e qual eu quero para um envolvimento amoroso e compromissado. – é isso que grande parte dos homens faz o tempo todo: mulher que dá é puta. entenderam agora?

Eu trouxe o comentário do Lucas à discussão não porque quero dar visibilidade aos trolls. Eu nem tenho atualizado o Tumblr, por exemplo, mesmo com tantas pérolas recebidas. Ando de saco cheio disso e com preguiça.

O que me espantou foram as reações aos comentários. Gente que não consegue enxergar o machismo por trás das declarações do rapaz. 

Quando eu era adolescente e vivia numa sociedade muito, muito machista, eu via os garotos fazendo esse tipo de classificação das mulheres. Aquela que já deixava passar a mão no peito logo de cara (ora vejam só), não era pra namorar. Se algum amigo já tivesse comido, aí mesmo que a garota “não prestava”. 

É exatamente isso que tenho combatido aqui neste blog. Somos seres humanos, que transam na primeira vez, na décima quinta vez, ou nunca transamos. Isso não nos coloca numa escala de valor, onde quem é mais “fácil” vale menos. 

Como disseram no meio da discussão, qual de vocês nunca fez sexo casual, mas é “altamente namorável”? 

Eu não sei vocês, mas eu namoraria um cara sem me basear na vida sexual pregressa dele. E nem é porque eu já dei pra esse tantão de caras, não, mas sim porque o que me faz querer alguém do meu lado é a sua educação, o modo como ele me trata, a inteligência. Além as óbvias afinidades (gostos parecidos pra cinema, música, gastronomia, viagens), há também o modo como ele vê o mundo – e não ser preconceituoso é uma condição essencial para que eu goste dele. 

O machismo e o preconceito não se revelam apenas em palavras toscas e “sujas”. Não é só no “puta”, no “vadia”, no “macaco’, no “tinha de ser paraíba”. Ele se esconde em palavras bonitas e nas atitudes de gente que teve todos os meios de ser bacana, mas escolheu ser babaca.

E você? Vai escolher o quê?

ps: desculpem o post todo louco na formatação. não estou conseguindo ajeitar.