Muita gente (e eu digo muita porque é muuuuuuuuuita mesmo) zoa a Lola porque ela diz ser feminista desde os oito anos de idade.
Existe idade certa pra isso? Quantos livros você deve ter lido antes de se autoproclamar feminista? É imprescindível estar matriculado numa faculdade de sociais (só vale federais, hein?!)? Participar de marchas é facultativo ou mandatório?
Se você não tiver tudo isso – e só tiver oito anos de idade, como a Lola – sua carteirinha vai ser cancelada?
Infelizmente existem feministas (ou protofeministas) defensoras das ideias acima. Qualquer coisa que foge àquilo é considerado estranho, não-feminista, tentativa frustrada de se autointitular feminista. Juro. Teve quem me chamasse de “mau caráter” por julgar meu feminismo “fake”, como se a pessoa, no Brasil, ganhasse alguma coisa em ser feminista. Ganha, sim: xingamento e preconceito. Só. Ah, e talvez algum “respeito” das pessoas o mesmo grupo, respeito este que desaparece ao sinal de qualquer deslize ideológico mínimo.
Grande parte dessas “teóricas” de feminismo brasileiras que vocês conhecem esquecem o básico do básico do básico: o pessoal é político. Já estamos na terceira onda, galera, cheguem aqui no século 21, é bacana, juro.
Com tantas regras e desconhecimento, muita gente é feminista e nem sabe. Têm medo da palavra. Não têm a menor ideia do que ela significa. A história que conto agora é prova disso. Antes de escrever o post, liguei pra protagonista e falei “vou postar sobre você”. “Mas eu não sou feminista!”, ela reclamou.
Ela não reconhece em si mesma a grande inspiração para eu ter virado feminazi. “Eu fiz o que eu tinha de fazer, era a minha vida, precisava vivê-la de acordo com meus ideais”, respondeu. É, meu grande amor, quando para viver seus ideais você precisa combater tudo o que lhe foi enfiado goela abaixo só por ser mulher, isso é feminismo.

Voltemos a 1989. O Muro de Berlim ainda estava de pé (quase sendo derrubado, coisa linda de se ver), vivíamos no Brasil a campanha eleitoral para – finalmente – elegermos nosso primeiro presidente por voto direto após a ditadura militar. Ok, erramos, mas o clima era de festa.
Não na minha casa.
Lá, uma jovem de 34 anos, casada há 15 e com três filhos, vivia o difícil momento de se separar. Ela, que casou para ser para sempre; ela, que não tinha fonte de renda; ela, que se preocupava em como ficariam os filhos após o desmantelamento da família.
Porém, não dava mais. As coisas haviam ficado muito feias (pelas minhas lembranças, já estavam feias há bastante tempo). Depois de muito separa-não-separa, nos chamaram à sala e nos contaram a “novidade”: meu pai estava saindo de casa. Se já fossem modinha as placas de “eu já sabia”, nós três teríamos levantado uma.
O que não sabíamos, pois a crueldade humana é sempre surpreendente, é que quando ele fechou a porta às suas costas, estávamos, nós quatro, sozinhos. E ela, minha mãe, com um letreiro de “desquitada” piscando na testa, como luzes de neon.
O tal muro caiu, Collor foi eleito, e nós vivíamos com o auxílio do meu avô paterno. Meu pai achou que minha mãe “cairia em si” e clamaria pela volta dele à casa. Afinal, ele era o provedor. Ela, a mulher que naqueles quinze anos tentou trabalhar, mas sempre recebia negativas do homem que deveria querer vê-la crescer, deveria querer apoiá-la na formação da autoestima, deveria ter orgulho de ter uma companheira que, além de boa mãe e excelente esposa, ainda seria uma profissional de sucesso.
Mas, se ela fosse tudo isso, ele não poderia mais falar e fazer barbaridades. Ela não se sentiria mais um lixo e aquela conversa na sala teria acontecido anos antes. Não. Era preciso mantê-la sem ter para onde fugir; é assim que o controle funciona – não só com portas trancadas, correntes presas aos pés, grades nas janelas.

As amarras invisíveis a seguraram durante muito, muito tempo. Até que ela arranjou forças, sabe-se lá de onde (nenhum casal da nossa família havia se separado), e arrebentou com tudo aquilo.
A libertação teve um preço alto. Lembro ainda hoje do jantar de Natal daquele 1989, três meses após a separação de fato, quando um dos familiares berrava, à mesa, que não queria ter uma irmã “desquitada”. Era vergonhoso.
A “vergonha” reverberou. No ano seguinte, quando eu estava na quinta série do colégio, convidei uma coleguinha para um passeio e ela prontamente aceitou, animada. Depois de alguns dias, me entregou uma carta. Ela pedia desculpa, mas precisava voltar atrás: seus pais não deixaram ela sair com a filha de uma mulher sem homem.
Àquela altura minha feminista favorita já tinha até outro homem em sua vida. Mas aí o problema era outro: ele era oito anos mais novo e minha mãe sorria. Ela estava feliz. Como assim ela desafiou a instituição casamento, a família, o poder do dinheiro, namorava um cara mais novo… e ainda assim estava feliz?
Como ela ousaria?
Como ela ousou denunciar agressão física à polícia, passar por exame no IML, e ainda assim reconstruir a própria vida, sem um macho para apontar os caminhos?
Como ela pôde juntar a autoestima do chão e se transformar no maior exemplo de feminismo em carne e osso que eu já tive o prazer de conhecer?
Nos anos seguintes eu fui apresentada violentamente ao que chamamos de “duplo padrão moral”. Ela, puta. Ele, garanhão. E, com ela, aprendi a xingar de volta, a bater no peito e ter orgulho de mim só porque eu sou eu, a não aceitar as migalhas da vida, a contestar o status quo.
Claro que não vou dizer que foi ali que me tornei feminista. Demorei vinte anos, ainda. O que aconteceu na época foi uma inquietação, uma sensação de que algo estava errado, de que tudo aquilo não era justo. Mas eu ainda estava aprendendo o nome das capitais da América do Sul na aula de geografia, não tinha internet para me informar em blogs (a internet não existia, risos). Era tudo muito prematuro. Porém, sem dúvida, foi meu primeiro impulso.

Apesar de eu já ter explicado tudo isso mil vezes, ela insiste que não foi o feminismo que a levou à luta. Está na hora de ela inverter esse pensamento: o feminismo existe justamente porque ela lutou. Ela e muitas outras mulheres: as sufragistas, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Betty Friedan, Adrienne Rich, bell hooks, Gloria Steinem, Maria da Penha, Pagu, Audre Lorde, Jessica Valenti. E eu. E você.
Porque a gente faz parte disso tudo. A luta é de todas nós. Lembre-se: o pessoal é político. Mudando sua vida, você muda o mundo.





