É só uma membrana. Só. E é elástica

Recebi um e-mail essa semana que é basicamente a repetição do que já li várias vezes desde que comecei a escrever o Cem Homens: a garota é virgem e, por alguma razão que desconheço, tem vergonha de assumir isso.

Bom, vamos à mensagem, que está em itálico. Meus comentários estão em negrito ao longo do texto.

Tenho 19 anos e sou virgem, ou quase isso, depende do conceito de virgindade.

Primeira (e aparentemente eterna) questão: pra quê conceituar a virgindade? Além de ser importante para a saúde pública, qual a relevância disso? Sério, é uma pergunta honesta. 

Qual é o conceito de virgindade? Num relacionamento heterossexual, normalmente é quando o pênis entra na vagina. Ok. E se você for lésbica? E se for gay? E se você for hétero, já tiver feito de tudo (sexo oral, anal, masturbação no parceiro, etc), você ainda é virgem?

Ou a questão toda é o pênis? Ainda somos essa sociedade falocêntrica? 

Se a resposta for “sim”, é preciso um pau dentro da buceta para dizer que alguém não é mais virgem, eu fico com outra pergunta: por que tratamos a primeira vez de uma forma totalmente diferente entre garotos e garotas? 

Bom, eu acho que a resposta vocês já sabem. 

Sua virgindade não é a medida do seu valor

O fato é que nunca tive um pênis dentro de mim, porém sou adepta da masturbação desde que eu tinha 12 anos (ou até menos, a partir dos 12 eu tenho certeza).

Quando eu era adolescente havia uma dúvida assombrosa: absorventes internos tirariam a virgindade? Confesso que nem me passava pela cabeça introduzir algo na minha vagina durante a masturbação. 

O que deveria importar é se a pessoa teve uma RELAÇÃO SEXUAL, e não se ela tem uma MEMBRANA. E devemos nos preocupar com a primeira vez porque isso gera uma série de responsabilidades que poderiam ser resolvidas com educação sexual de qualidade. Se aquela pessoa sabe os cuidados a serem tomados para garantir a saúde física (camisinha, anticoncepcional, exames regulares) e emocional, é o que importa.

Logo, “perder a virgindade” (odeio essa expressão) pressupõe uma relação sexual, não a mera introdução de um objeto na vagina. 

Atualmente quando me masturbo geralmente é “algo externo”, já tem algum tempo que não coloco nada dentro de mim, porém, já fiz isso no passado. Enfim, acho que meu hímen já se foi. Não, nunca fui ao ginecologista, sei que deveria o fazer, mas houve fatos que contribuíam para isso. O primeiro é que fui criada em uma cidade muito pequena onde todo mundo se conhecia, e a minha mãe muito conservadora não ia engolir fácil quando eu pedisse para ela me levar ao ginecologista (ela é quem iria pagar afinal de contas!). Hoje, por causa da faculdade, moro em uma cidade maior com duas amigas e me sustento, ou seja, poderia muito bem ir ao ginecologista.

Um erro muito comum: achar que só se deve ir ao ginecologista quando se tem vida sexual ativa. Há uma infinidade de infecções e outras doenças que uma jovem pode ter sem nunca ter feito sexo. Candidíase, por exemplo, chega a ser corriqueira. Também há questões hormonais importantes. 

Eu sei que esse não é um problema da leitora. Dificilmente os pais acham que as filhas estão na idade de ir ao ginecologista. Mas essa cultura precisa mudar. Gineco não é médico de quem fode; é médico de quem tem sistema reprodutor com útero e ovário. 

Mas aí eu me pergunto: e se ele questionar se eu sou ou não virgem? Como eu já disse anteriormente, o conceito é um tanto complexo. Daí eu digo que sou e estou lá sem hímen, ou digo que não sou e o tenho. Ou senão eu falo: “Então Dr., eu metia as coisas dentro de mim quando eu tinha 12 anos, mas nunca um pênis, se é que o senhor me entende”. Vai por mim, eu não consigo. E eu também não tenho certeza se o hímen está ou não lá.

Bom, ele provavelmente vai perguntar se você é sexualmente ativa e qual a sua última relação sexual. A resposta é simples: você nunca teve uma (para fins puramente médicos, você nunca teve). 

Esqueça o hímen. É só uma membrana e ela não necessariamente é rompida quando se introduz algo na vagina – seja um vibrador, seja o dedo, seja um pinto. Há diversos tipos de hímen e cada uma de nós funciona de um jeito. 

Sobre isso, sempre indico o vídeo da ótima Laci Green sobre a primeira vez (é em inglês).

NINGUÉM sabe que eu me masturbo, essa é a primeira vez que conto a alguém (e está sendo via e-mail).

Esse é um tabu e tanto (e injustificável em 2012). Desde sempre os meninos são estimulados a se masturbarem. “Coisa de homem”, os pais dizem. Achavam normal, quando eu era adolescente, que os meninos tivessem revista de mulher pelada. Hoje, é totalmente aceitável que eles vejam pornografia online.

Ninguém pergunta também por qual razão aquele rolo de papel higiênico ou papel toalha está ali no quarto. Se uma garota tiver um massageador, porém, é razão para começar a terceira guerra mundial! 

Falem mais de masturbação, garotas. Contem para suas amigas o que funciona pra você. Façam um tour ao sex shop. Vejam quantas coisas bonitas, coloridas e anatomicamente perfeitas estão à venda. É bom, é gostoso. 

Já cheguei muito perto de transar, MAS MUITO PERTO MESMO, do tipo, só não rolou porque a gente tava no carro do amigo dele (eu com a minha saia toda levantada) e o bendito amigo chegou. Não tenho a pira de perder a virgindade com um príncipe encantado que vai chegar em um cavalo branco, nem quero um relacionamento sério num futuro próximo, estou focando na faculdade e no meu trabalho. Aos sábados saio para a balada e sim, pego geral (mas tudo fica no beijo na boca e na mão boba) e eu adoro isso! Atualmente estou mantendo contato com um cara que eu conheci na balada e  ele já deixou bem explícito que quer sexo. E sei lá, estou com vontade de transar!

Mas essa é minha dúvida: Conto ou não conto que sou virgem? Será que ele vai perceber? Me ajude por favor.

Bom, vamos lá. 

Perceber? Hum. Por questões físicas, tipo sangramento ou dor? Não tem como saber de antemão. Há mulheres que nunca sangraram (eu, por exemplo), outras que sangraram na hora, muitas que sangraram só quando já estavam sozinhas. 

A dor costuma aparecer, mas também não há regra. E não só virgens sentem dor, então isso não é indício de que aquela é a primeira vez da garota.

Se ele vai perceber porque talvez você não saiba direito o que fazer? É possível. Mas tem gente (homens e mulheres) que mesmo depois de transar mil vezes ainda não sabem o que fazer. Logo, também não tem como bater o martelo.

Mas eu acho que sim, todo mundo deve contar quando é a primeira vez. Porque talvez você precise de um pouco mais de paciência, talvez você se confunda ao colocar a camisinha, talvez você sangre. 

Existe a possibilidade do cara fugir, assim como pode ser que ele se sinta o máximo por “desvirginar mocinhas inocentes”. As duas atitudes são idiotas, pois dão imenso valor a algo que não tem tanta importância assim.

Antes que digam “ah, pra mim foi importante!”, eu sugiro um exercício. Pense se você deu esse valor todo porque VOCÊ quis ou se foi porque a nossa cultura coloca a “castidade” como parte do caráter de uma mulher.

O que se quer é que os jovens adiem o início da vida sexual, e não que eles transem com responsabilidade. Falso moralismo, machismo, controle. O peso que se dá à virgindade da mulher tem a ver com isso, não com a saúde dela.

Então, o que importa é você (leitora que mandou o email e você aí que está me lendo) se cuidar física e emocionalmente. Transar quando tiver certeza, quando já tiver ido ao gineco (eu sei que isso é quase utopia, mas sigo torcendo!), quando souber direitinho quais riscos você corre, quando tiver um parceiro bacana (não um príncipe encantado porque isso não existe!), quando você estiver fazendo por você, e não para agradar, conseguir algo, ser aceita. Por você e pra você.

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Sigo respondendo perguntas no ask.fm (ask.fm/vidadeleticia), usando freneticamente o Twitter (@vidadeleticia) e postando coisas no Facebook (é só clicar em “curtir” nesse quadrinho aí na lateral esquerda). Interajam! E bom fim de semana. :)

Educação sexual… para os pais (e para a ministra)

O post sobre as declarações da ministra Maria do Rosário sobre o caso Eloá levou a algumas discussões no Twitter. Algumas pessoas disseram que a ministra estava certa. Outras, que não deixariam uma filha namorar alguém tão mais velho. Teve quem reclamasse da tal sexualidade precoce (namorando aos 12 anos? queima na fogueira!).

A história toda me espanta. Fico surpresa como uma ministra pode falar tamanha asneira. Você pode até concordar que uma garota de 12 anos não deve namorar, especialmente alguém “tão mais velho”. Mas, eu pergunto: a ministra alguma vez foi lá falar com a mãe da Eloá? Oferecer apoio? Conhece os autos do processo? Falou da transformação do cárcere privado em novelinha trágico-romântica nas redes de televisão? Me parece que não (e espero estar errada). Em vez de, como autointitulada feminista, apontar que este é mais um crime do machismo, colocou a culpa na família da vítima. Ela sabe como Eloá era criada? Sabe se faltava apoio familiar? E, quem diz que a menina transava com Lindemberg: você estava lá? Que diferença isso faz no caso?

Depois se entrou na discussão de que o correto seria falarmos em erotização precoce, e não em sexualidade, já que esta é inerente ao ser humano, como demonstrei no último post. Qual é a idade para isso? Quem disse? De onde veio a regra? As coisas mudam. Não só na época em que vivemos. Eu, adolescente nos anos 1990, não queria saber de sexo com 12 anos. Ainda brincava na rua, jogava bola, subia em árvore. Mas tive um namoradinho (opa! ele era da minha idade). Durou um fim de semana e eu nem beijei ele. Eu fui precoce?

Hoje, pra quem nasceu após a virada do século (e que estão fazendo os tais 12 anos), as coisas mudaram muito. São jovens mais bem informados, mais independentes. Não sou socióloga, nem psicóloga, nem antropóloga. Mas… muita gente fala em diminuir a maioridade penal. Chamam de monstros garotos que cometem crimes aos 10, 12 anos. Eles podem matar, mas não podem transar? Sinceramente, não sei a resposta. Não sei resolver essa equação. Se filhos tivesse, ficaria em casa angustiada sempre tentando entender e acertar na educação. Se ministra fosse, escolheria melhor minhas palavras e contaria com os tais sociólogos, antropólogos, psicólogos e toda a sorte de especialistas para me ajudar nisso.

Como sou apenas uma mera blogueira, posto abaixo um texto que já havia feito e entraria no ar apenas amanhã. É a minha experiência pessoal. Como disse, de uma jovem mulher que foi adolescente na década de 1990, isto é, há vinte anos. Uma sociedade muda em duas décadas, lembrem-se disso. Não adianta vocês quererem viver lá no passado.

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O que você faz individualmente, dentro da sua casa, é problema seu. Quer ser rígido e não permitir que os filhos saiam à noite? Ou que fumem? Ou que bebam? Ou que transem?

Ok, isso é uma escolha baseada no jeito que você foi criado, nos próprios medos e inseguranças, na sua religião. O que incomoda na fala da Ministra é que ela falou como agente político, e não como uma “zelosa” (e autoritária) mãe. Eu não terei filhos, mas sou uma cidadã relativamente engajada, pouco alienada e que escrevo sobre sexo. Então, a respeito do tema eu confio no meu próprio bom senso, em autores que estudaram o assunto, em documentários sérios acerca da questão. Mais que tudo: eu lembro do que eu passei e observo muito como nos comportamos socialmente. Além dos incontáveis e-mails, eu pergunto, questiono – faço quase um interrogatório.

E, com tudo isso, eu vejo que de nada adianta proibir. Não porque “o proibido é mais gostoso”. Eu não concordo com isso. Nunca achei “gostoso” encontrar com meu namorado escondida. Odiava. Sentia culpa. Deixava de aproveitar o momento plenamente, como deveria acontecer.

Como já disse algumas vezes, transei pela primeira vez aos 15 anos. Jamais mencionei o assunto com a minha mãe. Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Usamos camisinha. Nunca fiquei grávida ou tive qualquer DST. Mas, sinceramente, não posso creditar isso à educação sexual que tive dentro de casa.

Quando alguns artistas começaram a morrer por HIV, como Cazuza e Freddie Mercury, minha mãe comprou uma camisinha e nos mostrou. Explicou o que era a doença e disse como deveríamos nos proteger. Eu era bem nova, sexo nem passava pela minha cabeça.

Menstruei aos 10 anos, transei aos 15 e só fui ao ginecologista aos 17, quando já morava sozinha. Entre minha primeira transa e a minha saída de casa (dois anos mais tarde), minha mãe veio conversar comigo sobre meu namorado. Disse “imagina se você tivesse transado com o primeiro namorado, hoje você estaria sem ele e não seria mais virgem”. Eu ri muito por dentro. Muito. Eu havia de fato transado com o tal primeiro namorado e já havia feito o mesmo com o segundo. Detalhe: ele era virgem.

Só que durante alguns anos eu tive muito medo de que minha mãe descobrisse que eu não tinha mais – olha só que coisa! – um hímen. Eu não podia ir pras festas de carona com meus namorados, pois não podíamos ficar sozinhos. Mas aí ela ia me deixar… e eu fugia das festas. Sozinha com o namorado. Em muitas dessas vezes eu não transei, pois ainda era virgem e não ia transar só porque a oportunidade apareceu. Em outras, eu transei, no carro mesmo, naquela famosa rapidinha.

Durante anos eu rezei para que minha menstruação descesse todo mês. Tinha medo da reação da minha família caso eu engravidasse (engraçado… jamais me incomodei com a parte “social” da coisa). Muito tempo mais tarde, já morando sozinha, tinha de inventar desculpas quando ia sair com algum moço e estava recebendo visitas da família. Era mais fácil mentir do que ter de dizer o que o garoto fazia, o que estudava, há quanto tempo a gente saía e se iríamos namorar. E, na volta, ainda tinha de dizer como o filme tinha sido bom ou a comida (ui) estava gostosa. Tudo inventado, tudo ficcional, pois o máximo que eu poderia dizer é como era a suíte do motel da vez.

Estava conversando com uma amiga há pouco e ela comentou que a mãe dela dizia que a bunda da mulher caía depois da primeira transa. Assim, não adiantava essa minha amiga esconder caso fosse pra cama com alguém. Só pelo formato da bunda a mãe descobriria as peripécias da filha.

Que tipo de educação sexual é essa? Que quer que a gente adie e adie e adie a primeira transa? Pelo que vejo aqui no blog e nas minhas amigas, talvez um ou outro de nós tenhamos adiado um pouco, sim. Mas todos fizemos. E, quando isso aconteceu, o sexo veio carregado de culpa, como se fosse sujo, proibido. Um pecado.

Assim, os primeiros anos de vida sexual da maioria de nós não foi nada feliz. Ok, atingíamos o orgasmo (o que é sempre delícia), mas não era pleno. Era como se tivesse uma vozinha dentro de nós relembrando quão errado era aquele comportamento.

Em vez disso, pais e mães deveriam lidar com o sexo de maneira natural, porque é exatamente isso que ele é. Não estou dizendo que deve ser fácil perceber que o filho, que até ontem era um bebê, hoje já é grande o suficiente para ter vida sexual. Mas, como pai, você deve orientar, e não proibir.