Ciúme, essa coisa idiota sem nenhuma relação com o amor

Nós já nos apaixonamos mutuamente, brigamos em demasia, paramos de nos falar, voltamos a nos falar, brigamos mais um pouco, nos amamos mais um montão. Chegamos à conclusão (ok, mais ele do que eu) de que não é possível termos um relacionamento amoroso. Pelo menos não do jeito que as pessoas imaginam que isso seja.

Ele mora em outra cidade e sente imensa necessidade de controle. Eu, idem. Resultado: uma árdua luta por poder que jamais chegará ao fim. Decidimos, mesmo sem palavras, que está-bom-do-jeito-que-está. Falamos o dia inteiro no Facebook, contamos coisas íntimas um pro outro, fazemos planos de futuro, mesmo os que nunca se concretizarão. Semana passada, por exemplo, escolhemos as estantes da casa que teremos quando casarmos.

E vamos muito bem assim, obrigada. Só que não falamos sobre nossas vidas amorosas. Eu, falastrona, acabo contando uma coisa ou outra. Ele, nunca. Mesmo que eu peça. Até que em uma noite dessas ele parou de falar no chat do Facebook por alguns segundos.

Quando voltou, jogou a ~bomba~:

- Acabei de receber uma booty call.

Espumei do lado de cá da tela. Fiquei procurando dentro da minha cabeça onde havia surgido aquele ciúme. Eu saio com outros caras e sou partidária do relacionamento aberto (quando conversamos a respeito, inclusive, sempre dizemos que se tivéssemos um relacionamento “rotulado”, certamente poderíamos beijar-transar com outras pessoas).

Fiquei sem entender a minha própria reação. Quando ele começou a revelar algumas preferências sexuais que ele compartilha com a tal moça que ligou pra ele, me enfureci. Confessei meu ciúme e deixei ele falando sozinho.

Enquanto ele estava lá, em outra cidade, transando e sendo feliz, eu estava aqui pensando a respeito do meu ciúme. Infelizmente devo dizer que não é novidade na minha vida. Até bem pouco tempo atrás eu poderia me descrever como uma mulher ciumenta.

Mas as coisas mudaram. Eu mudei. Ter ciúme não tem nenhum sentido depois de tudo o que vivi, li e pensei. Não combina mais com a pessoa que me tornei.

Porque eu finalmente me dei conta de que ciúme não tem qualquer relação com quantidade de amor. É bem comum acharmos estranho quando nosso par não demonstra o tal “sentimento”. Pensamos logo que ele não nos ama ou que não se importa.

Não é verdade. O ciúme ocorre quando somos inseguros com a gente mesmo (“ele é areia demais pro meu caminhãozinho, já que sou feia/gorda/burra/etc”). Ou por acharmos que o outro “nos pertence”. “Se ele é meu, então não pode se envolver com mais ninguém.”

Pensar em proibir, reclamar e fazer escândalo é uma guerra inútil. Nossos parceiros irão, sim, conhecer outras pessoas. Irão sentir desejo por essas pessoas. Transarão com essas pessoas. E serão felizes com essas pessoas.

Por que temos tanto medo que isso aconteça? Se nosso amado nos “trocar” por outra, vai doer, sim, mas você quer que ele fique com você por obrigação?

No final percebi quão imbecil eu estava sendo. O moço bonito de pernocas delícia continua sendo ~meu~ nos momentos em que sempre foi: a gente segue conversando o dia inteiro. Sei que posso ligar quando sentir saudade do sotaque e das gírias horríveis que ele usa.

O que eu quero dele é que ele continue prestando atenção no que eu digo. Esses dias ele disse que havia jantado bem. Eu perguntei o que havia sido, e ele “você não ia gostar”. Ele lembrou que eu não como frutos do mar – e eu sequer recordava já ter dito isso pra ele algum dia.

Quero que ele continue me apoiando nos meus projetos, me admirando em uma coisa ou outra, me elogiando de vez em quando pra aquecer meu coração. Eu continuo tendo tudo isso. E nós vamos ter isso com outras pessoas, também.

Eu não preciso “tê-lo” como um prêmio, como um objeto. Eu só quero (sequer preciso!) ele na minha vida porque ela se torna mais colorida com ele por perto.

PS: Enquanto fazia a procura de imagens para esse post, coloquei “jealousy” e “ciúme” na busca. Basicamente apareceram ilustrações de duas mulheres disputando um homem. Ciúme não tem a ver com gênero. Não é sentimento de “mulherzinha”. É sentimento de GENTE insegura e possessiva. Independente de gênero. 

Casamento aberto… de que lado?

Todas as vezes em que falei sobre relacionamento aberto aqui no blog inúmeras dúvidas surgiram. Parte das pessoas julgaram que não exigir monogamia seria uma boa saída para “salvar” a relação.

Não era uma vontade genuína de sair com outras pessoas, tampouco uma mudança de perspectiva sobre a questão da fidelidade. Não. É como se pegassem aquelas listas milagrosas de como evitar o término e começassem a testar cada uma delas. Comprar lingerie nova, fazer uma viagem a dois, experimentar novas posições, ir ao swing… E assim vão testando, tentando, fazendo de tudo para não “perder” a pessoa.

Mas, peraí: se você não acredita em relacionamento aberto, por qual razão você está insistindo em um? Você prefere dividir o que é seu (eu não acho que ninguém é de ninguém, mas é assim que grande parte das pessoas pensa) a ficar sozinha?

Uso os adjetivos no feminino porque em todas as vezes que fui questionada a respeito disso foram mulheres que me escreveram. Sabedoras da tal tese de que “homem não aguenta ficar com uma mulher só”, elas pensam nesta possibilidade para “sossegar o moço”, “ser uma mulher completa”, “melhor fazer e continuar comigo”. Elas, porém, não sentem vontade de sair com outros homens. Querem posar de modernas, bem resolvidas, mas se corroem de ciúme.

Claro que isso não é regra (existe alguma regra em relacionamentos?), e estou falando de alguns casos que conheço. E conheço um bem de perto. A mulher não transa com mais ninguém, mas acompanha o marido em swings e festinhas. E não, ela não sente tesão nisso. Ela só quer marcar território.

Quando vê o marido interagindo mais, digamos, amorosamente com alguém, ela pula. Ele é proibido, por exemplo, de fazer sexo oral nas outras – regra que ele talvez cumpra na frente dela, mas ele também sai sozinho. E sim, ele quebra a tal regra.

O que ela queria, mesmo, é que ele não transasse com mais ninguém. Ela não acha isso certo, mas acredita que é o preço que deve pagar pra continuar casada. Eu sou sempre a favor de experimentar, de ver qual é, de sentir coisas novas. Mas se você acredita realmente na monogamia, relacionamento aberto não é para você. Forçar isso só para continuar com aquele parceiro só vai te fazer sofrer. Uma separação também, eu sei, mas melhor isso do que viver uma relação de mentira.

A régua da felicidade

Desde que comecei este blog me deparei com o que há de pior nas pessoas. Recebi muitos xingamentos horrorosos, pragas diabólicas e coisas do tipo. Felizmente as coisas acalmaram, ainda que volta e meia (todo dia, mas em menor número) eu tenha de excluir comentários maldosos.

Fui aprendendo a lidar com isso e a não dar tanta importância. Conheci muita gente bacana pelo blog. E não só eu: há um grupinho de amigos virtuais que se conheceram nos chats que a gente faz de vez em quando por aqui. Acho super legal vê-los interagindo no Twitter. Pessoas de vários lugares do Brasil, com bagagem completamente diferente, se encontraram por causa do blog.

Também conheci o namorado porque ele é leitor. Nosso primeiro encontro foi totalmente por acaso. Eu estava gripada, com preguiça de sair, e já havia combinado um almoço com um amigo. Aliás, seria um almoço com “sobremesa”. Meu querido amigo se enrolou no trabalho, eu acordei melhor da gripe, e resolvi ir lá ver qual era.

Fui muito feliz naquela tarde e noite. Jamais esperei ou desejei me apaixonar. Aconteceu. Estou muito satisfeita com os rumos da minha relação com ele e escrevi sobre o assunto no último post. O texto não chega nem próximo de demonstrar o meu real contentamento em tê-lo na minha vida.

Namorado é bem humorado, inteligente, criativo, gostoso, carinhoso, atencioso. Para vocês terem uma ideia, ele lê as blogueiras feministas, prefere a TPM à Trip, devora livros sobre sexualidade. Alguns dos textos sobre os quais já falei aqui ou no Twitter foram indicados por ele.

Mas a minha felicidade aparentemente irrita algumas pessoas. No último post há vários comentários me desejando sorte. Só que há aqueles dizendo que meu relacionamento não é sério, ou que a história é fake, ou que tudo o que eu sempre desejei, na verdade, era arrumar um namorado e por isso eu me joguei nos braços de qualquer um.

Estes comentários são desrespeitosos a mim, mas dessa vez há outra pessoa envolvida. Namorado não é “qualquer um”. Ele é um dos caras mais incríveis que eu já conheci na vida. E olha, eu já conheci MUITOS homens.

Ele também não é o primeiro/único homem do mundo a me dar atenção. Eu não sofro do chamado “dedo podre”; escolho com uma certa competência os amigos e homens que me rodeiam. Eu observo pessoas, tenho um nível de exigência um pouco elevado, e não abro minha intimidade para qualquer um. Abro minhas pernas, sim, mas chegar realmente perto não é assim tão fácil.

Sou muito amada e querida por quem me cerca. Verdade, tenho uma personalidade difícil, ácida, ranzinza, e por isso mesmo algumas pessoas me detestam. Normalmente é recíproco, então vida que segue.

O amor que recebo dos meus homens, dos meus amigos e da minha família me faz bem e me satisfaz. Sim, eu quero ser amada. Lógico! E namorado veio SOMAR nesse aspecto, e não completar.

O fato de ele ainda não querer morar comigo também trouxe espaço para as pessoas dizerem que ele não quer nada sério comigo. Bom, primeiro isso é um problema só nosso, não é mesmo? Em segundo lugar, se o namoro de um amigo de vocês demora anos para virar noivado, depois não sei mais quantos anos para virar casamento, ninguém acha nada errado, né?

Então, o que tem de errado no fato de o namorado não querer morar comigo em dois meses de namoro?

Eu conto pra vocês: as pessoas que acham que ele não quer nada sério comigo é porque não conseguem aceitar que uma “puta” possa ser amada. Como assim uma mulher que queria transar com cem homens pode ter alguém que realmente goste dela? Quem ela pensa que é? Isso é impossível! Os homens só querem comer e sair fora! Quem mandou ser vadia?

Não é exatamente isso?

É assustador. Não quero namorar com nenhum de vocês. Não só porque eu não os conheço, mas sim porque o pouco que já percebi é o suficiente para que eu perceba quão baixos vocês são.

Também vi alguns comentários dizendo que casamento aberto é indício de falta de seriedade. Juram? Eu tenho leitores que vivem – e muito bem! – assim. Casados, com filhos. Família de propaganda de margarina. Olhando de fora, vocês jamais imaginariam que eles transam com quem desejarem. Trocam casais, participam de surubas. E são felizes. Não é isso que todos nós queremos?

A babaquice chega em níveis tamanhos ao ponto de alguém dizer que, enquanto eu estava me declarando, o namorado estava viajando e comendo outra. Por mim ele não precisa nem viajar para transar com alguém; ele pode fazer isso estando aqui em São Paulo mesmo! O irônico é quem exatamente naquele momento que um desocupado fazia o comentário, eu estava falando com o namorado no gtalk – e fazendo encomenda de cosméticos! Igualzinho a um casal “normal”.

Jamais incentivei ninguém a viver da mesma maneira que vivo. Eu mal sei se as minhas escolhas são certas, imagine se vou cagar regra na vida alheia. Este ano, mais do que aprender novas posições sexuais, eu aprendi a respeitar a diversidade. Vi que há pessoas sendo felizes de maneiras pouco convencionais – e gente sendo muito infeliz dentro do padrãozinho que nos fizeram acreditar que seria o passaporte para uma vida plena.

Sou verdadeiramente feliz, e se a minha felicidade te incomoda (com o agravante de sequer nos conhecemos), quem tem problema aqui não sou eu. Você pode não querer um relacionamento aberto, pode não querer transar com cem homens, pode achar nojentas certas taras, mas não meça o mundo com a sua régua. Isso é ser intransigente, isso é não saber viver em sociedade, isso é desrespeitar a diversidade.

Somos únicos, cada um com seus medos e anseios. Só alguns de nós, todavia, conseguimos ser felizes. Destilar veneno por aí não indica que você esteja pleno; aliás, mostra justamente o contrário. Em vez de procurar defeito na vida dos outros, que tal procurar na sua? Identificar o que está errado em você é um grande passo. Talvez assim, finalmente, você comece a experimentar o que é a felicidade. Eu recomendo. Não sei viver sem ela.

*explicando a foto: pra mim, a felicidade pode ser traduzida num cachorro na grama com uma bola. o meu adora. 

Dois dedos de prosa sobre o post de relacionamento aberto

Anteontem escrevi sobre minhas primeiras impressões acerca do relacionamento aberto. Várias pessoas ficaram felizes por mim, diversas relataram suas experiências nesse campo, algumas disseram não se sentirem confortáveis com a ideia de afastar a monogamia.

Tudo muito bom, tudo muito bem até uma leitora dizer que estava saindo com um rapaz, e chamou seu próprio relacionamento de “aberto”. Outra perguntou se “regredir para um relacionamento aberto” seria uma boa solução para salvar o namoro em crise. Sinto então a necessidade de dar alguns pitacos sobre essa percepção incorreta que as pessoas têm do que é essa bagaça.

Nessas relações as pessoas PODEM sair com outras; elas não são OBRIGADAS a isso. Não vira uma surubona não, gente. Pode até ser uma, mas não é a regra. Cada casal vive isso de maneira diferente. Conheço quem sai junto e separado, conheço quem até arranja homem pra própria esposa. Sei que alguns não curtem saber das saídas; outros sentem um mega tesão nos relatos – e transam apaixonadamente.

Também não existe essa ideia de evolução de um relacionamento aberto para um monogâmico. Não é aquela ficada que um dia vai virar namoro. Já é um namoro/casamento, gente! O casal faz tudo igualzinho aos zilhões de apaixonados que vocês veem por aí: a gente vai ao cinema, anda de mãos dadas, apresenta pra família e pros amigos. Alguns dizem para todo mundo que não vivem uma relação monogâmica, enquanto outros preferem deixar isso escondido.

Você pode decidir que o relacionamento aberto não é para você, mas procure conhecer um pouco mais. Talvez você se surpreenda como tem gente feliz vivendo assim.

***

No tal comentário da menina que está saindo com um cara, eu respondi que o relacionamento dela não era aberto – era uma ficada. Pra quê? A patrulha (sempre presente neste blog, incrível!) começou a dizer que eu estava menosprezando a relação da leitora.

Oi? Vocês sabem como este blog começou? Foi com as minhas narrativas de SEXO CASUAL. Se eu achasse algo de errado em uma simples “ficada”, eu não faria isso direto na minha vida, né?

Isto posto, fica óbvio que as patrulheiras do blog querem, na verdade, polemizar. Elas vêm aqui, leem, e arrumam qualquer vírgula para descer o pau (ui), mesmo sem nenhuma razão.

Daí começam a dizer que sou agressiva e não aceito críticas. Eu aceito opiniões divergentes da minha (se não eu nem aprovaria os comentários), mas não vou tolerar críticas a mim, ainda que bem escritas. Vou responder à altura. É lógico. O fato de eu ter um blog não me coloca na categoria Madre Teresa de Calcutá, não.

Além disso, vamos parar com a vitimização? Vocês vêm aqui no blog, me criticam, e já vão logo começando o comentário com “sei que vou tomar patada e blábláblá”. Porra, né? Se querem que eu as leve a sério, não se façam de coitadinhas.