Baixa autoestima e gente babaca: a receita de um relacionamento abusivo

91846968

Quem lê meu blog há muito tempo (ou leu o livro) sabe que eu me apaixonei perdidamente e as coisas não terminaram lá muito bem. Aliás, foi péssimo. Logo em seguida ou ao mesmo tempo (fica difícil dizer), eu tive uma crise depressiva.

Amor chegando ao fim + depressão = autoestima cagada. Mas, assim, ca.ga.dís.si.ma. Se você não tem forças nem para tomar banho, imaginem se você consegue se sentir desejável/atraente. Claro que cada um sente de um jeito, mas essa foi a minha experiência lá no fundo do poço.

Aos poucos fui subindo, redescobrindo certas habilidades, mas no que se refere ao “amor”, eu continuava equivocada. Escolhi seres impossíveis de chegar perto. Usando de psicologia barata, eu diria que era medo de me envolver de novo, a história não dar certo e eu ficar pra sempre nessa montanha russa emocional.

Só que a vida continua e eu gosto muito de mocinhos, thank you very much. Voltei a me engraçar com um e com outro, sem muito sucesso. Pra vocês terem uma  ideia de como fui “bem sucedida”: numa das vezes, a manhã seguinte ao coito teve barulho de tambor. Dentro do quarto (mas essa história vocês só conhecerão completa se tiver um segundo livro, mas para ter o segundo livro vocês precisarão comprar o primeiro. compra aí).

Depois de um 2012 nada florido, tomei a decisão: a maré ia virar. E comecei a flertar novamente, meio sem jeito, super insegura e me sentindo ridícula (não fisicamente, porque não houve grandes mudanças nisso aí). O resultado foi: em janeiro, tomei uns seis bolos, de quatro caras diferentes. Isto é, teve um dos caras que dei mais de uma chance. Porque, afinal de contas, imprevistos acontecem, o cara ficou até mais tarde no trabalho, está num dia ruim, sei lá. Sem problemas. A questão é quando isso começa a acontecer repetidamente.

Aconteceu, claro. Eu sabia. Eu tinha certeza.

Por qual razão, então, eu não dei um basta? Ontem vi o último episódio de Mindy Project e uma amiga da protagonista diz a ela: “você está só tapando um buraco”. E não, ela não estava falando literalmente.

Uma crítica que eu recebia no inicio do blog é que eu transava com vários para preencher uma carência afetiva que meus críticos juravam que eu tinha. Era justamente o contrário. Por estar bem e feliz, eu transava sem esperar cavalos brancos, flores no dia seguinte, pedidos de casamento dali a uma semana.

A necessidade de atenção, pra mim, não vem do sexo. São departamentos completamente separados. Não fiquei com raiva desse moço porque “ele não me comeu”, mas porque me deixou plantada esperando ou porque sumia das conversas sem nem dizer tchau. E eu ali, super bocó, esperando migalhas de atenção.

Voltando à Mindy, o que a amiga dela quis dizer é que ela estava colocando esperanças demais num relacionamento que, bom, não era um relacionamento. Era sexo casual, bacana, gostoso, mas não era namoro.

O problema de se sentir, às vezes, uma merda, é que a gente se envolve com gente que se aproveita disso. E nos faz ter CERTEZA que somos uma merda. Na sequência, a pessoa deita e rola (não acontece só em relacionamentos amorosos, mas em familiares, em amizades e até em contatos profissionais), e nós achamos que somos merecedores exatamente daquilo: migalhas.

É assim que relacionamentos abusivos começam. Você não está muito certo do próprio valor, o outro te faz aos poucos se sentir ainda pior e, quando você vê, está totalmente sob controle do outro. Aceitando qualquer pedacinho de pseudoamor.

O ideal é nunca ficar nessa situação de vulnerabilidade (como eu estive e, convenhamos, meio que ainda estou). Mas ninguém é 100% fodão, então aqui e acolá vamos nos ver enrolados em relacionamentos pouco respeitosos. Nos resta ficar de olho, sempre, e fugir assim que os primeiros sinais aparecerem.

Eu tô fugindo hoje, 1º de fevereiro de 2013. Desculpaê, Cazuza, mas raspas e restos não me interessam.

Cinquenta tons de backlash

ATENÇÂO: Se você ainda não leu Cinquenta Tons de Cinza e pretende fazê-lo, pule este post. O texto tem spoiler.

Eu não li Cinquenta Tons de Cinza. E nem lerei. Não tenho tempo ou dinheiro para gastar. Em geral não curto literatura erótica; mesmo assim acho que existem obras bem bacanas que me acrescentariam muito mais, se eu quisesse enveredar pelo tema (Anaïs Nin e Catherine Millet são exemplos).

No início achei que a trilogia fosse apenas equivocada. Com a chegada da obra ao Brasil e com o boom nas vendas, a imprensa começou a falar muito sobre a história de Anastasia e Christian. E aí algo começou a me incomodar: passaram a falar como se TODA mulher quisesse um relacionamento daquele, como se qualquer mulher no universo quisesse, na verdade, ser submissa.

Só que não existe “todo mundo” quando se fala sobre sexo (no início do blog eu generalizava demais e era criticada. Hoje sei como isso era danoso). Eu, Letícia, não tenho qualquer tesão em sentir dor ou em alguém mandando em mim. Tampouco tenho vergonha de abrir um livro erótico na frente de qualquer um. Leio no ônibus, no café, onde for. Então não, nem toda mulher se enquadra nisso aí.

Minha antipatia não ultrapassava a questão da generalização feita pela imprensa. Até eu entender mais sobre o livro, mesmo que, juro, eu não tenha procurado informações. Daí bateu o desespero.

Pra ser bem objetiva, coloco em tópicos a razão do meu descontentamento com Cinquenta Tons de Cinza e o motivo pelo qual eu acho que é um retrocesso:

1) Anastasia é virgem e boboca. Christian é sedutor e milionário. Daí eles se encontram e, em tese, se apaixonam. Ok. Contos de fadas da Disney all over again? Vamos mesmo incutir na cabeça das mulheres que ela pode ser ~esquisita~ e que vai vir um homem e vai salvá-la?

Ou vamos mostrar que tudo bem ela ser esquisita e que tudo bem ela ser solteira? E esse homem que é o príncipe encantado precisa ser milionário? Ou ela pode ganhar o dinheiro dela… com o trabalho dela?

2) Mesmo virgem e sem qualquer experiência sexual (me corrijam se eu estiver errada, mas ela sequer se masturbava), ela aceita entrar numa relação de BDSM. E na primeira vez que transa, goza sei lá quantas mil vezes e continua gozando em todas as relações com Christian.

Bom, já escrevi mil textos sobre a primeira vez e em todos eu digo que não há regra; que há quem se divirta muito e há quem odeie com todas as forças. Então Anastasia poderia, sim, ter gozado. Mas todas as vezes?

Esse discurso faz com que as mulheres se sintam culpadas por não atingirem o orgasmo vaginal. “Será que há algo de errado comigo?”, elas perguntam. Muitas não sabem nem se gozaram, e está lá uma ficção distribuindo orgasmos. Não, não e não.

3) Christian Grey quer que Anastasia assine um contrato para que eles tenham uma relação BDSM. Risos. Risos. Risos. Contrato de papel, gente! Pra transar!!!! Pra uma pessoa ser DONA do seu corpo!!!

Mais louco ainda é que Anastasia NÃO assina. E eles têm a tal relação BDSM. Ah, uma dicona: contratos em que você dispõe do seu corpo não têm qualquer valor jurídico.

4) Uma relação BDSM (o que popularmente se conhece como “sadomasoquista”) deve dar prazer aos participantes e deve ser sempre, sempre, sempre consensual. Mesmo que você aí não consiga entender como alguém pode curtir ser amarrado, usar coleira e outras práticas, há muita gente que curte. E isso não tem nada a ver com traumas passados ou algum tipo de doença mental.

Pois imagine (e agora vem um spoiler, se liga!) que Christian Grey teve uma infância mega difícil. É filho de uma prostituta que se suicidou, sofreu abusos e por isso mesmo não deixa Anastasia tocá-lo.

Hã? As pessoas já têm tanto preconceito contra quem pratica o BDSM e aí vem uma autora X e estereotipa mais uma vez??? Errado, muito errado.

5) A relação entre Christian e Anastasia é abusiva. Ponto. Não há o que discutir aqui e fico muito, muito impressionada que algumas pessoas não enxerguem isso. Pior: tem muita mulher sonhando com um Christian Grey.

Uma relação abusiva não é só aquela em que existe violência física fora do quarto, tampouco precisa ficar óbvia a dominação de um dos parceiros (se bem que Grey deixa beeeeeeeeeem óbvio que manda em Anastasia).

Se você se submete aos desejos do parceiro (que a essa altura nem sei se pode ser chamado de “parceiro”) para que ele não vá embora, mesmo que você não esteja curtindo, ISSO É UMA RELAÇÃO ABUSIVA.

Porque uma relação saudável e de parceria pressupõe que ambos (ou mais) estejam no mesmo patamar, que sejam iguais. Não é o que acontece em Cinquenta Tons. O primeiro livro da trilogia, por exemplo, acaba quando Christian chicoteia Anastasia, que fica chateada e termina o namoro.

Claro que no segundo livro eles voltam, e ela diz que ficar sem ele doeu mais do que a agressão física. Isso é exatamente o que se chama de “violência doméstica”. Uma das pessoas fisica e/ou emocionalmente superior ao outro bate no parceiro – que, “em nome do amor”, aceita aquela violência. Como é que vocês podem criticar a mulher que apanha do marido e depois aceita ele de volta, mas podem suspirar por Anastasia e Christian???

Pra vocês terem uma ideia da loucura, não sei em qual dos livros Christian compra a empresa em que Anastasia trabalha só para que ela não viaje com o chefe dela. Não está convencida ainda? Durante a lua de mel, Anastasia faz topless e Christian fica puto. Daí ele resolve que é uma boa ideia dar chupões fortíssimos nos seios dela, deixando-os marcados, para que ela não os mostre mais pra ninguém.

Numa boate, um cara apalpa a bunda de Anastasia e ela revida com um tapa. Por que ela se sentiu violentada? Não! Porque ela tinha medo da reação do Christian ao saber que alguém tinha “invadido a propriedade”.

Eis o trecho, em inglês, com minha tradução livre embaixo.

My hand is throbbing. I have never slapped anyone before. What possessed me? Touching me wasn’t the worst crime against humanity. Was it? Yet deep down I know why I hit him. It’s because I instinctively knew how Christan would react seeing some stranger pawing me. I knew he’d lose his precious self-control. And the thought that some stupid nobody could derail my husband, my love, well, it makes me mad. Really mad.

“Minha mão está latejando. Eu nunca bati em ninguém antes. O que aconteceu comigo? Me tocar não foi o pior crime contra a humanidade, não é? Mas no fundo eu sei o motivo pelo qual eu dei um tapa nele. É porque eu instintivamente sabia como o Christian reagiria ao ver um estranho me apalpando. Eu sabia que ele perderia seu tão precioso autocontrole. E pensar que um estranho poderia tirar dos trilhos o meu marido, meu amor, bem, isso me deixa louca. Muito louca.”

Christian também controla a alimentação de Anastasia. As roupas. A depilação. Ela não pode sequer se masturbar sem a permissão dele.

A cada novo detalhe sobre os livros eu fico ainda mais chocada. Fico também estupefata que as pessoas não consigam enxergar quão abusivo é esse relacionamento, e vejam tudo como se fosse apenas uma historinha de ficção. Não é.

Esta é a tecla que muitos de nós temos batido: esse tipo de obra faz com que achemos “normal” algumas coisas. Claro que não se deve proibir, censurar… mas questionar? Tentar entender porque tantas mulheres estão sonhando com Christian Grey?

Isso devemos fazer, sim. Devemos olhar para nossas próprias vidas e ver quantas vezes nós deixamos que abusassem de nós em nome de um “amor”, que na verdade é alimentado por autoestima abalada. Eu já passei por isso – quem acompanha o blog há mais tempo deve lembrar do número 15. Não chegou a ser uma relação (foi só uma noite), mas me submeter às vontades dele para ser querida/aceita me fez ficar mal durante semanas. Porque eu me dei conta da merda que eu tinha feito. Espero que não seja tarde demais pra você perceber que está fazendo merda também, pelo menos nos seus sonhos.

***

Amanhã vou publicar o primeiro texto da Sheila Sens, amiga e leitora, que leu a trilogia só para escrever aqui. Vamos na ordem dos livros, claro.

***

Se você acha que ~é só ficção~, leia esse texto da psicanalista Regina Navarro Lins sobre os contos de fadas. É de 2011 e eu compartilhei há alguns dias no Facebook. Por favor não ignorem o inconsciente.

***

Ao final de cada texto da Sheila eu vou colocar alguns links sobre Cinquenta Tons para vocês repensarem. Hoje fiquem com o vídeo da linda Laci Green (em inglês).