A feiura está nos olhos de quem vê

Antes do texto: dei entrevista para o site da revista Lunna. Leiam! 

Voltando à programação normal:

O comentário foi bem direto: “Vc deve ser gorda e ou feia! Conheço mulheres!”. Postado no início da tarde de hoje, me fez pensar a respeito do assunto durante algum tempo. Volta e meia encontro xingamentos deste tipo para moderação: “deve ser uma ogra”. Nem vou entrar no mérito da infantilidade da maledicência. Acho que não preciso, né?

Ontem, com todo o bafafá acerca do comercial da Hope (vou falar mais a respeito dele este fim de semana), algumas pessoas disseram que quem enxergou sexismo no comercial era, no mínimo, feio. Sentimos inveja da Gisele, afirmaram, sem sequer considerar outras possibilidades.

E se fôssemos feios? Isso de alguma forma desvalorizaria nossas ideias?

Não sei nem porque usei o condicional “se” no início da penúltima frase. Somos quase todos feios, sim, senhor. Alguém realmente não percebeu ainda?

Fiz um exercício curioso. Peguei um ônibus hoje e resolvi observar todo mundo que ali entrasse. Foram muitas pessoas. De todas, devo dizer que me apaixonei perdidamente por um rapaz de barba mal feita e olhos verdes. Vi também um garoto que seria considerado bonito – mas não gatíssimo – pelos nossos padrões. Logo no primeiro ponto do ônibus subiu uma moça de corpo delicioso. Bunda empinada e cinturinha fina. Todos vocês a achariam uma gostosa.

Mas foram três pessoas. Três, em meio a dezenas, dentre as quais eu me incluo. Uma vez uma garota me perguntou no Twitter se todos os homens com quem eu saía eram gatos. Respondi que não. Ela retrucou: “Nossa, então eu não quero”. A questão é: eles por acaso desejariam você?

Longe de mim querer bancar a hipócrita. A gente gosta de ver a Gisele, sim (de preferência, sem reiterar o machismo da nossa combalida sociedade). Por compromissos profissionais, eu já a vi desfilando. Fiquei impressionadíssima com a beleza, classe e simpatia da modelo. Ela não está no topo à toa.

Em um dos meus primeiros posts relatei que estava ficando mais feminina. Duas pessoas fizeram comentários me questionando se eu não estava “me vendendo ao sistema”. A discussão carece de mais embasamento e explicações do que pretendo dar numa sexta-feira em que espero o show da Shakira (podem me julgar). Matutei a respeito e concluí que não, eu não estava me enquadrando num padrãozão. Mais uma vez: coloquemos a hipocrisia de lado. Todo mundo gosta de alguém cheirosinho, com uma roupa combinando e um indício de vaidade aqui ou acolá. Eu me sinto bem melhor quando passo corretivo nas olheiras e estou com as unhas do pé pintadas de cereja.

Mas esta é uma beleza real. Sou feia, mas com um quê de belo. Somos todos assim. Também no ônibus havia um rapaz com o rosto muito bonito. A barriga, porém, mostrava que ele “precisaria” emagrecer uns 30 quilos para se enquadrar no irreal padrão de beleza vigente. Fiquei observando-o. Ele esbarrou sem querer em outro passageiro, pediu desculpa, e logo engatou uma conversa sobre o nada. Ele sorria, e ao descer do ônibus deu tchau para o amigo relâmpago que jamais encontrará novamente. Gorducho, ele é lindo simplesmente por ser quem é.

Somos bilhões de feios. Como disse meu amigo @guetoblaster hoje no Twitter, a vida não é um casting da Victoria’s Secrets. Somos ogrinhos, com cabelo desgrenhado, estrias, espinhas na bunda (uma leitora relatou o caso de um ex rolo que dizia que isso era capaz de broxá-lo). Somos reais, de carne, osso, e mais ou menos gordura.

E todos nós transamos e nos reproduzimos, se assim nos apetecer. Feio transa – e muito. Não precisamos ser deuses gregos para sermos desejáveis.

Falo de três homens com quem saí esse ano. Minhas leitoras antigas ficam suspirando por um deles, o Eduardo. Ele tem um corpo super em forma, mas não é – mesmo – bonito de rosto. O carinha com quem me reencontrei, por exemplo, tinha uma barriga tanquinho, mas usava pesados óculos (quando os tais óculos não eram modinha indie) para os seis graus de miopia. Namorado é baixinho, mas abre a boca de uma maneira surrealmente linda quando está a poucos momentos do orgasmo.

Todos somos lindos. Pode ser o jeito de andarmos ou gesticularmos. Pode ser a mordida no lábio. Pode ser até o formato das unhas. Eu sou linda, mesmo que esteja muito mais longe do padrão do que vocês imaginam.

Quem só dá valor a quem sai bem em foto para postar no Facebook é que enxerga o mundo com olhos enviesados. São pessoas que não conseguem ver a beleza. A feiura está nos olhos de quem vê.

PS: Sobre isso, leiam o texto da Hildegard Angel.