Uma carta aberta ao Facebook

Na última terça-feira, feministas americanas publicaram uma carta de repúdio ao Facebook pela maneira como agressões de gênero são tratadas na rede social.

Muitas blogueiras e coletivos feministas se uniram para replicar a mensagem, cobrando dos anunciantes que parem de utilizar a plataforma enquanto não acontecer a mudança nas políticas do Facebook.

Aqui no Brasil também lutamos contra várias páginas e outros absurdos da rede social, e não surpreendentemente as exigências das feministas americanas são bastante parecidas com as nossas. Por isso, pedi permissão para republicar a carta aqui no blog, assinando embaixo. A Leila Paiva, leitora aqui do blog, gentilmente traduziu o texto. Mantivemos os nomes das páginas misóginas no original, mas aqui no Brasil temos diversos exemplos parecidos. Também por aqui fotos de mulheres amamentando ou na Marcha das Vadias foram removidas. O problema – assim como da violência contra a mulher – é mundial.

UMA CARTA ABERTA AO FACEBOOK

Por Soraya Chemaly, Jaclyn Friedman e Laura Bates, publicado originalmente no Huffington Post em 21 de maio de 2013

Nós, abaixo assinadas, estamos escrevendo para solicitar ação rápida, abrangente e efetiva a respeito das representações de estupro e violência doméstica no Facebook. Especificamente, queremos que você, Facebook, tome três ações:

1.       Reconheça o discurso que trivializa ou glorifica violência contra meninas e mulheres como discurso de ódio, se comprometendo a não mais tolerar este tipo de conteúdo.

2.      Treine moderadores de maneira eficaz, para que reconheçam e removam discurso de ódio baseado em gênero.

3.      Treine moderadores de maneira eficaz, para que entendam como o assédio online afeta homens e mulheres de modo diferente, em parte devido à pandemia de violência contra as mulheres no mundo real.

Para isso, estamos encorajando usuários do Facebook para que entrem em contato com anunciantes cuja publicidade no Facebook apareça próxima a conteúdos que colocam mulheres como alvo de violência; para solicitar a essas empresas que retirem seus anúncios do Facebook até que as ações solicitadas acima para banir discurso de ódio baseado em gênero sejam tomadas.

Estamos nos referindo especificamente a grupos, páginas e imagens que explicitamente compactuam ou encorajam estupro ou violência doméstica ou que sugerem que sejam algo a se rir ou se gabar de. Páginas ativas no momento no Facebook incluem Fly Kicking Sluts in the Uterus (“Dando voadoras no útero de vagabundas”), Kicking your Girlfriend in the Fanny because she won’t make you a Sandwich (“Chutando sua namorada na buceta porque ela não quer fazer um sanduíche para você”), Violently Raping Your Friend Just for Laughs (“Estuprando violentamente sua namorada só de zoeira”), Raping your Girlfriend (“Estuprando sua namorada”) e muitas, muitas outras. Imagens postadas no Facebook incluem fotos de mulheres espancadas, feridas, amarradas, drogadas e sangrando, com legendas do tipo “Essa vagabunda não sabia quando calar a boca” e “na próxima vez não engravide”.

Essas páginas e imagens são aprovadas pelos seus moderadores, enquanto vocês frequentemente removem conteúdos como fotos de mulheres amamentando, de mulheres pós-mastectomia e de representações artísticas do corpo feminino. Além disso, imagens de mulheres em discurso político envolvendo o uso de seus corpos em protestos e de maneira não-sexualizada são regularmente banidas como pornografia, enquanto conteúdo pornográfico – proibido pelas suas próprias regras de uso – é mantido. Parece que o Facebook considera a violência contra a mulher menos ofensiva do que imagens não violentas de corpos femininos, e que a única representação aceitável da nudez feminina é aquela em que mulheres aparecem como objetos sexuais ou vítimas de abuso. A sua prática comum de permitir esse tipo de conteúdo anexando a ele uma isenção como [humor] literalmente trata a violência contra a mulher como uma piada.

 A última estimativa da campanha das Nações Unidas Say No UNITE é de que a porcentagem de mulheres e meninas que foram vítimas de violência durante suas vidas é de intoleráveis 70%. Em um mundo em que tantas meninas e mulheres serão estupradas ou agredidas no decorrer de suas vidas, permitir que conteúdos sobre estuprar e agredir mulheres sejam compartilhados, incentivados e tratados como piada contribui para a normalização da violência doméstica e sexual, cria uma atmosfera em que agressores estão mais propensos a acreditar que não serão punidos e comunica às vítimas que elas não serão levadas a sério caso denunciem.

De acordo com uma pesquisa feita pelo Departamento de Governo britânico, uma em cada cinco pessoas acha que é aceitável que um homem bata ou esbofeteie sua mulher ou namorada em reação a ela estar vestida com roupas sexy ou reveladoras em público. E 36% acreditam que uma mulher deve ser totalmente ou parcialmente responsabilizada se ela for agredida sexualmente ou estuprada quando bêbada. Esse tipo de atitude é moldada, em parte, pela influência enorme de plataformas sociais como o Facebook e contribui para a culpabilização da vítima e a normalização da violência contra a mulher.

Apesar das alegações do Facebook de não se envolver em desafiar normas ou censurar discursos, vocês mantém procedimentos, termos e orientações para a comunidade que são interpretados e impostos. O Facebook proíbe discurso de ódio e seus moderadores lidam diariamente com conteúdos violentos, racistas, homofóbicos, islamofóbicos e antissemitas. A sua recusa em aplicar as mesmas regras para discursos de ódio baseado em gênero marginaliza meninas e mulheres, menospreza nossas experiências e preocupações e contribui para a violência contra nós. Facebook é uma rede social gigantesca com mais de um bilhão de usuários pelo mundo, o que torna o seu site extremamente influente em moldar normas e comportamentos sociais e culturais.

A resposta do Facebook às milhares de reclamações e solicitações para lidar com estas questões foi inadequada. Vocês falharam em fazer uma declaração pública a respeito do problema, em responder a usuários preocupados ou em implementar políticas que melhorariam a situação. Vocês também têm agido sem consistência em relação à própria política de remoção de imagens, em muitos casos se recusando a remover fotos ofensivas de estupro e violência doméstica, quando a remoção é solicitada por membros do público, mas as removendo assim que jornalistas as mencionam em artigos, o que nos envia a forte mensagem de que vocês estão mais preocupados em agir caso a caso para proteger a sua reputação do que em efetuar mudanças sistêmicas e assumir uma posição pública clara contra a perigosa tolerância ao estupro e violência doméstica.

Num mundo em que centenas de milhares de mulheres são agredidas diariamente e onde violência perpetrada pelo parceiro continua sendo uma das principais causas de morte de mulheres no mundo, não é possível ficar em cima do muro. Nós apelamos ao Facebook para que tome a única decisão responsável e que aja de maneira rápida e clara sobre a questão, alinhando políticas sobre estupro e violência doméstica com seus objetivos de moderação e regulamentos.

Sinceramente,


Laura Bates, The Everyday Sexism Project
Soraya Chemaly, Writer and Activist
Jaclyn Friedman, Women, Action & the Media (WAM!)
Angel Band Project
Anne Munch Consulting, Inc.
Association for Progressive Communications Women’s Rights Programme
Black Feminists
The Body is Not An Apology
Breakthrough
Catharsis Productions
Chicago Alliance Against Sexual Exploitation
Collective Action for Safe Spaces
Collective Administrators of Rapebook
CounterQuo
End Violence Against Women Coalition
The EQUALS Coalition
Fem 2.0
Feminist Peace Network
The Feminist Wire
FORCE: Upsetting Rape Culture
A Girl’s Guide to Taking Over the World
Hollaback!
Illinois Coalition Against Sexual Assault
Jackson Katz, PhD., Co-Founder and Director, Mentors in Violence Prevention
Lauren Wolfe, Director of WMC’s Women Under Siege
Media Equity Collaborative
MissRepresentation.org
No More Page 3
Object
The Pixel Project
Rape Victim Advocates
Social Media Week
SPARK Movement
Stop Street Harassment
Take Back the Tech!
Tech LadyMafia
Time To Tell
The Uprising of Women in the Arab World
V-Day
The Voices and Faces Project
The Women’s Media Center
Women’s Networking Hub
The Women’s Room

O caso Pistorius e o discurso de crime passional

Uma das mais famosas frases de defesa do feminismo (como se precisássemos disso) é “o feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todos os dias”. O assassinato de mulheres pelo próprio parceiro é o ponto final de histórias de violência que muitas vezes se prolongam por décadas.

Segundo dados da ONU, 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência durante a vida. Tal número representa duas a cada três mulheres.

Às vezes a gente vê isso acontecendo, reconhece as marcas de agressão física, percebe que alguém está correndo risco, mas não fazemos nada. Aqui no Brasil temos aquele ditado de “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Recusamos ajuda durante, e depois, quando o crime escalou para algo irreversível – o assassinato -, temos a atitude de culpar a vítima.

“Ah, ela ficou lá porque quis”, “se ela tivesse terminado”, “alguma ela aprontou”. E perdoamos o assassino: “ele estava descontrolado”, “agiu sob violenta emoção”, “ele a amava demais”.

O caso Pistorius é emblemático nesse sentido. Como observou Jessica Valenti nesse texto (em inglês), “apenas um dia após atirar em Steenkamp [a namorada do atleta] quatro vezes, Pistorius tem sido descrito como “calmo e positivo” e “inspirador”. Ela? É chamada de “loura de pernas longas”".

Se você não está familiarizado com o crime, um pequeno resumo: Pistorius é aquele atleta que correu nas Olimpíadas de Londres de 2012 com próteses nas duas pernas. Todo mundo aplaudiu, achou o máximo, se inspirou na história do homem que, apesar de tudo, não desistiu do esporte.

pistorius

 

Um vencedor, dissemos.

Esse mesmo homem matou a tiros a namorada na última quinta-feira. Primeiro, a notícia foi a de que ela teria entrado sorrateiramente na casa do atleta para surpreendê-lo e ele a confundiu com um ladrão.

Os fatos foram se desenrolando e, até agora, o que se sabe é que a modelo Reeva Steenkamp foi morta no banheiro da suíte. Os últimos detalhes revelados indicam que ambos estavam deitados na cama (a posição dos lençóis mostra que havia duas pessoas deitadas). Reeva e Pistorius vestiam roupas de dormir e chegaram ao condomínio do atleta às 18h do dia anterior. Duas horas antes do assassinato, a polícia e os seguranças do condomínio foram chamados porque os vizinhos ouviram uma briga entre o casal.

Agora, surgiu na cena um bastão de críquete coberto de sangue – além de Reeva ter ferimentos no crânio. Um dos tiros atingiu o quadril da modelo, que teria se escondido no banheiro – e os outros três tiros foram na cabeça de Reeva. Machucados na mão dela indicam que ela teria tentado “proteger” a própria cabeça.

A história é toda horrenda e assustadora. Mas ela nos aponta coisas que insistimos em não enxergar. A primeira delas é que violência doméstica acontece em qualquer classe social. Em segundo lugar, que pessoas “acima de qualquer suspeita” na vida social podem ser, na verdade, criminosos frios e agressivos. Em terceiro, que esses crimes poderiam ter sido evitados – no caso de Pistorius e Reeva, a polícia já havia sido chamada outras vezes à casa do atleta em razão de distúrbios entre os dois.

Quarto e muito, muito importante: a cobertura midiática de crimes como esse insiste em culpabilizar (ou apagar) a vítima, costumeiramente mostrando o agressor como um cara bacana, “que ama demais”. Foi assim no caso Eloá e no de Ângela Diniz. Nesse último, o assassino Doca Street matou a companheira para “proteger sua honra” e “sob violenta emoção”. E chegou a ser absolvido no primeiro julgamento (e condenado depois a 15 anos de prisão).

Chega de romantizar crimes contra mulheres.

Não há nada romântico em matar alguém.

Isso não é “crime passional”. É violência de gênero. É ainda mais grave do que um latrocínio (roubo seguido de morte), porque essas pessoas confiaram nos parceiros e decidiram levar uma vida com eles.

Traduzo um trecho do texto de Jessica Valenti sobre o caso Pistorius porque é perfeito e aponta exatamente o que falei acima:

A conversa sobre assassinatos decorrentes de violência doméstica não passa de um conto de fadas – uma narrativa criada para fazer a loucura ter sentido. Afinal de contas, é mais confortável pensar que Belcher [um americano que deu nove tiros na esposa recentemente] tinha algum problema mental do que admitir que alguém que nós admiramos tanto era um agressor violento e controlador. É mais fácil pensar que Pistorius acidentalmente atirou em Steenkamp do que admitir que o assassinato era o final previsível para o relacionamento violento.

Por isso nós culpamos as mulheres mortas pela violência impensável cometida contra elas. Fazemos isso em parte por causa da misoginia, mas também porque isso dá uma falsa sensação de segurança. Dias após ser morta, a mulher de Belcher foi criticada por chegar tarde em casa (que abuso!), acusada de tentar deixar o marido e “levar o dinheiro dele”. Pelas descrições sexuais de Steenkamp, tenho certeza que logo alguém vai sugerir que ela de alguma forma “pediu por isso” – ela estava provocando ciúme em Pistorius ou paquerando demais. Nós precisamos acreditar que essas mulheres tiveram alguma culpa na violência, porque se não isso poderia acontecer com qualquer uma de nós. (Nós não somos “como elas”!)

News flash: você é exatamente como elas. Você é mulher. E só isso já dá automaticamente passe livre para alguém cometer violências contra você. Precisamos mudar o discurso. Imediatamente.

UPDATE: Se você ainda não se convenceu a respeito da forma como se trata a vítima de uma agressão misógina, veja a capa do The Sun abaixo. Inacreditável. Ah, caso você leia em inglês, não deixe esse texto aqui passar.

thesun